domingo, 19 de dezembro de 2021

De Luis Landero a Manuel Vilas e Javier Marías

 Leio Chuva Miúda de Luis Landero com uma insatisfação, ia dizer «indefinida», mas julgo que é concreta. A história, as personagens, o enredo são interessantes, mas a narrativa parece demasiado ligeira ou superficial para aquilo que o autor tem em mãos. É uma sensação que evoca a que tive ao ler Reviver o Passado em Brideshead, quando imaginei estar a folhear um digest. Este Chuva Miúda, que tem uma estrutura de diálogos curiosa, parece-me um esboço; enuncia os factos sem lhes explorar verdadeiramente a densidade, mas também não encontra a sua força literária no poder da sugestão.

Curiosamente, o livro e o autor são vivamente recomendados, com citação na capa, por Manuel Vilas, o autor dos maravilhosos Em Tudo Havia Beleza e E, de Repente, a Alegria, o que poderia fazer imaginar alguma afinidade estilística ou estética entre Landero e Vilas. Mas quando fecho um capítulo de Chuva Miúda não fica em mim nada de parecido com o que me deixou a prosa concisa e poética, a voz narrativa de Manuel Vilas, nada de tão comovente, lancinante ou arrebatador.

Há em Chuva Miúda, de todo o modo, acontecimentos e personagens capazes de fascínio e inquietação, mas para minerar isso neles parece-me que seria preciso alguém predisposto a enveredar longamente pelas curvas da vida e as circunvoluções da mente, alguém como Elena Ferrante ou Javier Marías. Landero parece ficar num meio-termo entre Manuel Vilas e aqueles dois corredores de fundo: uma narrativa abreviada mas sem o poder impressivo de Vilas; a amostra de um enredo e de caracteres que Ferrante ou Marías transformariam em ouro puro.

Em todo o caso, prosseguirei com leitura do livro, a ver se o autor logra afinal um efeito seu. E se isso acontecer será abusivo o que vou dizer agora, que este Chuva Miúda me fez pensar numa hesitação representativa de um tempo, ou antes, de um statu quo literário: uma hesitação que parece em simultâneo condescendência e confissão involuntária de falta de fôlego. Características de certos escritores, editores e leitores — de si para si e de uns para com os outros.

P.S.: Juntar Manuel Vilas e Javier Marías num post na altura em que sai o novo livro deste último — descrito (e bem) numa recensão como «explicativo, maximalista, detalhado» — poderia ser apenas uma coincidência, mas não é, é uma piscadela.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Dia de pesca

«Sujidade. Não havia outra palavra. Sujidade material e mental. Mas, em simultâneo, inocência, a inocência dos estultos.

Há trinta anos, ainda as mulheres eram apalpadas à luz do dia e se dividiam entre as que davam risadinhas e as que davam estalos (as outras não tinham existência reconhecida), o Buldogue ressonava de consciência imaculada sob ou sobre uma pilha de roupa. Na escuridão do quarto, apenas dava para distinguir em cima da cama o que parecia uma grande elevação de trapos escuros que contrastava com os lençóis mais claros — ninguém arriscaria dizer brancos, mesmo que originalmente o tivessem sido. Não era possível perceber se ele se tinha enfiado debaixo das roupas, temendo que a ressaca o deixasse susceptível à fresca da aurora — o que teria implicado uma capacidade de planeamento própria de uma noite que não tinha corrido assim tão bem —, ou se simplesmente mergulhara no enxoval inextricável de roupa lavada e suja que jazia sempre na cama baixa. Podia pôr-se ainda a hipótese de tudo aquilo, aquele volume que lembrava um morro de escória nos arrabaldes de uma mina desactivada, ser apenas ele, o Buldogue. Os contornos eram bastante semelhantes aos que ele exibiria se alguém por insanidade momentânea se dispusesse a imaginá-lo deitado, e com a luz apagada não havia uma noção exacta de escala. Sobre a cama podia bem estar, portanto, apenas o Buldogue depois de ter atirado com tudo ao chão sem que lhe sobrasse energia para se despir. O que o Gafas e ele temiam era que houvesse ali alguma ilusão de óptica e o Buldogue se tivesse mesmo despido antes de aterrar, e por isso nenhum deles se atrevia a tocar-lhe para o acordar. Havia limites para o nojo que estavam dispostos a aguentar, mesmo naquela época.

Meia hora antes, Daniel tinha arrancado o Gafas da discoteca para o obrigar a cumprirem a promessa de se juntarem ao Buldogue numa pescaria. Não se interessava nada pela pesca e a «promessa» fora apenas uma piada, mas a noite na discoteca estava terminada, o DJ já pusera a tocar o remix de encerramento e Daniel agarrar-se-ia a qualquer esperança de continuar nos copos depois de saírem dali. De modo que atravessaram às escuras a propriedade dos pais do Buldogue, fazendo slalom entre alfaias e detritos, até chegarem à casa, uma antiga pensão que depois do último hóspede, décadas antes, nunca mais vira uma demão de tinta e, em certos aposentos, nunca mais vira uma vassoura. A porta da rua estava apenas encostada, como era frequente na época, e logo depois virava-se à direita para um corredor com muitas portas, por trás das quais dormia um rebanho de irmãos e irmãs e os velhotes do Buldogue. Daniel e o Gafas, caminhando às apalpadelas, tinham uma vaga ideia de qual era o quarto, mas não podiam estar cem por cento seguros. O risco de entrarem nos aposentos do casal ou, pior, no quarto de uma das irmãs, era grande, ainda que as consequências estivessem longe de ser graves da maneira como hoje seriam. O pior que lhes poderia acontecer era levarem um tiro, mas se sobrevivessem dificilmente teriam a vida social ou a reputação arruinada.

A dupla podia ter-se limitado a esperar na rua, toda a gente sabia que os pescadores madrugavam, e o Buldogue, se tivesse mesmo decidido ir pescar no dia seguinte, levantar-se-ia, estremunhado e com os cabelos em pé, como se lhe tivessem aplicado a descarga eléctrica de um desfibrilador, mas cedo, com as galinhas. (Até literalmente: as aves de capoeira ali ignoravam o significado da designação porque eram socialmente conhecidas e passeavam-se na casa com natural liberdade, pondo ovos nos recantos e merda por todo o lado, facilitando a vida à dona da casa, que não tinha de andar muito para degolar um galináceo quando decidia que o almoço era frango. Por isso, e não por razões inquietantes, havia também manchas de sangue no chão do corredor.) No entanto, Daniel não queria correr o risco de deixar o Buldogue desistir do plano e insistira para que o acordassem. O fim de noite deles coincidia com o início de dia de um pescador, mas era preciso que o Buldogue não se esquecesse durante o sono que era um pescador.

O Gafas, de resto, aderira logo à ideia, mal continha o riso, tudo o que desejava era ver a cara de espanto do outro quando desse por eles no quarto. E quando isso aconteceu, houve um sobressalto no monte de escombros na cama, como a réplica forte de um sismo. Ou como se tivessem detonado uma carga de explosivos numa das galerias da mina, afinal ainda em actividade. Houve uns instantes de barafustação de um lado e risota abafada do outro. Houve uns sopapos moles quem nem o ar feriam. No fim, saíram dali em fila, nenhum perto de estar sóbrio, o Buldogue a praguejar, alguém a peidar-se num dos quartos. Enfiaram-se na carrinha de três lugares, Daniel resignando-se a ir no meio — no lugar da puta, dizia-se então —, uma cedência que não o incomodava, fazia-a sempre sem ganhar nada com isso e desta vez esperava-o um dia de farra. O céu clareava a oriente.

Habitualmente, Daniel pouco mais recordava do episódio do que isto. Havia ainda uma imagem vaga e ao mesmo tempo inverosímil do Buldogue, com as roupas de cangalheiro que usava em todas as circunstâncias, a olhar com paciência a bóia à espera que o peixe mordesse. Ele que nem na missa conseguia estar quieto e por isso nunca chegava realmente a entrar na igreja. Outra imagem, do Gafas dobrado a meio em gargalhadas — típica dele, aliás —, com os óculos na ponta do nariz, fazendo lembrar o Mortadela da dupla Mortadela & Salamão. E havia a memória de Daniel já entediado a teimar para irem mas era nadar um bocado e os outros, com vergonha de se despirem, a desviarem a conversa com uma fanfarronice qualquer. Ao final da tarde desse dia estavam de volta, e, quando Daniel recuperou a consciência, deu por si sentado na banheira a levar com a água quente do chuveiro na cabeça. Era a imagem simbólica de um born again, um cristão renascido a ser baptizado depois de se arrepender do pecado do alcoolismo. Só que ele não se arrependia de nada, muito menos daquilo de que não se lembrava. Também não se arrependia do pouco de que se lembrava. Estava apenas zonzo e um pouco indisposto, a tentar recompor-se para a noite.

O ponto forte da história, quando sentia vontade de a contar a amigos, era a lembrança de terem parado num snack-bar ao chegar às imediações da albufeira, um daqueles que abriam cedo para os pescadores, e de o Buldogue ter pedido, com jovialidade e alarido, chispe. Chispe de pequeno-almoço acompanhado de vinho tinto: era esta para Daniel a piada de toda a história, o insólito, a loucura resoluta do Buldogue, que divertia Daniel — e com que ele tinha contado para poder continuar a beber.

Mas agora Daniel tinha acordado com um peixe no tapete do quarto e uma memória fresca do que acontecera naquele snack-bar há trinta anos. Como se tivesse acontecido na madrugada do dia de hoje. Lembrava-se como não teria conseguido lembrar-se meros dez minutos depois da madrugada daquele dia.»

[Início de nada. Amarfanhar e encestar teatralmente no caixote dos papéis.] 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Breve história do engajamento político na imprensa do meu tempo

Quando comecei a ler jornais, rapidamente me interessaram os colunistas que, tanto quanto podia na altura julgar, possuíam uma de duas virtudes (preferencialmente as duas): boa prosa (inteligente, imaginativa, irreverente, culta, elegante, capaz de ironia e humor) e pensamento acutilante (perspicaz, mas também independente, livre, imparcial).

À época governava Cavaco Silva e tinham surgido o Independente e a Kapa e foi maioritariamente nessa dupla impressa que julguei ter encontrado o que me interessava. Depois Paulo Portas escancarou as suas ambições políticas, Miguel Esteves Cardoso deixou de beber como antes (e continuou a escrever ainda bem mas sobre ninharias) e os caminhos que apontaram à imprensa foram entretanto mais ou menos tropeçados por outros artífices.

Veio o tempo em que comprava dois diários e dois semanários e lia regularmente certos escribas. Os governos tendiam agora a ser socialistas e alguns colunistas (cujos nomes me abstenho de dizer por embaraço) permaneciam contra, o que, em vez de um padrão caprichoso, parecia confirmar independência de espírito.

Surgem os blogues, com uma nova direita carregada de bibliografia selecta como antes a esquerda estivera carregada de Marx e seus exegetas, Bush filho invade o Iraque contra o mundo razoável e na imprensa alguns começam a cumprir o que uns quantos vinham candidamente defendendo: o esclarecimento das opções ideológicas. José Manuel Fernandes sai do armário, o arquitecto Saraiva regressa às cavernas.

Eis que Passos Coelho herda a alegre bancarrota de Sócrates (e a não menos impudica mas mais indultada crise internacional) e, como se diz hoje dos portugueses vacinados, quis mostrar-se o melhor aluno da Europa — no caso, o melhor aluno do neo-liberalismo ou capitalismo selvagem ou o que lhe quiserem chamar (que social-democracia não é de certeza) — e o que antes (não imediatamente antes, a bem dizer) parecia colunismo imparcial revelou-se então no seu esplendoroso envolvimento e activismo ideológico: aqueles colunistas pela primeira vez não eram contra.

Os armários (e as cavernas) abrem-se de par em par, e colunistas, bloggers e alguns escritores, legitimando-se e estimulando-se mutuamente, soltam o lastro, soltam a franga, recolhem âncoras e zarpam de melena ao vento, cavalgando a onda que lhes parece a onda certa da História, como se nos oceanos só houvesse tsunamis e a Lua não tivesse um papel nas marés. Dispensam já, embora digam o contrário, o teatro da objectividade, da imparcialidade, da justiça, porque a hora é de combate, de militância, de alistamento — de engajamento, essa prática outrora lastimável nos velhos intelectuais de esquerda. Põem-se activa ou passivamente do lado de Trumps e Bolsonaros e criticam Putin apenas para disfarçar o quanto são por ele fascinados. Para facilidade de leitura, se não estão no CM, juntam-se maioritariamente no Blasfémias e no Observador — e isso temos de lhe agradecer.

Mais erro, menos erro na cronologia, é esta a breve história do engajamento político na imprensa do meu tempo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Villa Juliana

 


«Quão frágeis e falíveis podem ser as percepções em que assenta a construção de uma identidade, a formação de um carácter? Ou: quão capaz é a memória dessas percepções de resistir ao confronto com outras percepções sobre os mesmos mitos ontológicos de origem?

Uma mulher regressa como hóspede num fim-de-semana de Inverno à casa onde viveu na adolescência, agora transformada em alojamento para turismo de montanha. Não é uma excursão nostálgica típica, mas, nas suas palavras, "um confronto em simultâneo inquietante e voluntário com o passado: ia ficar na Villa Juliana, a casa onde vivi até aos vinte anos, quando o meu pai era ali o médico da Companhia, antes de se tornar o assassino da minha mãe".

Um desconhecido chega a uma cidade ao acaso e conhece histórias e pessoas que o distraem das razões porque conduziu fortuitamente centenas de quilómetros para se transformar num anónimo. É o interlocutor perfeito para o recém-regressado herdeiro de um solar com maneiras e discurso excêntricos.

Num restaurante da serra sem outros clientes, dois homens convidam uma mulher para a sua mesa. Fecha-se o círculo.»

Villa Juliana
Rui Ângelo Araújo | 2021

Encomendas: edlinguamorta@gmail.com

domingo, 28 de novembro de 2021

Identidade

Estive uma hora e picos numa conversa onde a voz (o timbre, a pronúncia, a expressão) de um dos interlocutores me era profundamente familiar, mas não conseguia perceber porquê. Estudei o rosto da pessoa diversas vezes, todos os pormenores que a máscara e a boina deixavam ver dele, mas não encontrei ali nada de reconhecível. Estudei-lhe a compleição, e parecia apenas comum, anónima. De resto, ele tinha dito a certa altura que era (genericamente, percebo agora) de uma terra onde eu não conheço ninguém e pus ali de parte as inquirições mentais. Fiquei-me apenas pela ideia de que a voz (e a linguagem corporal, na verdade) me fazia lembrar alguém, de eras passadas da minha vida ou possivelmente da TV ou do cinema.

Depois das despedidas, já eu encerrara o assunto, um amigo que tinha estado em cogitações semelhantes mas a propósito do nome da pessoa, fez-me perguntas que levaram a associações e, em dois ou três passos como num silogismo, cheguei à conclusão: era o T. de S.!

Camuflados por máscaras, cãs e décadas, estivéramos longo tempo numa farsa mal ensaiada, a fingir que dizíamos coisas novas para o outro, com uma cortesia de estranhos, quando podíamos ter estado a perguntarmo-nos mutuamente pela vida e a família, a rirmo-nos outra vez do que já lá vai e a reconfirmar esta ou aquela recordação que se nos turvou ou se vai perdendo.

Teria isto acontecido sem máscaras, ou envelhecer é esta coisa, sermos portadores de uma voz que pertenceu a outra pessoa, podermos ser vistos pelos outros como alguém sem ligações ao indivíduo que fomos?

Pergunto-me se ele passou pela mesma dúvida ou se nunca a teve e sustentou a farsa por uma questão de urbanidade, de resposta proporcional à minha frieza misantropa ou snob. Ter-me-á reconhecido e achado afectado ou está agora a registar no seu diário frases ponderosas ou absurdas como as minhas sobre o passar do tempo e esta coisa estranha que é a vida e nós nela?

sábado, 27 de novembro de 2021

Caldeirada de cogumelos

Conversas sobre o assunto ou uma pesquisa na Internet revelam que os nomes dos cogumelos, além de múltiplos, são intermutáveis. O que num sítio é conhecido por frade, noutro é conhecido por tortulho, e o que eu conheço por tortulho conhecem outros como míscaro, que por sua vez era o meu tortulho. Percebo agora porque é que na minha família só se comiam frades e, mais raramente, tortulhos (dos nossos). Comia-se o que se conhecia directamente, por já alguém ter comido e sobrevivido para o testemunhar, não o que outros dissessem que era comestível. Porque sendo os nomes tão intermutáveis, a possibilidade de alguém estar a chamar um nome comestível a um cogumelo venenoso não era de excluir. Lá na aldeia havia quem comesse também sanchas e míscaros (que outros chamam de tortulhos) e tudo indica que sobreviviam, porque no dia seguinte víamo-los na rua. Por vezes eu e os meus irmãos apanhávamos o que conhecíamos por míscaros e sanchas (que nunca levávamos para casa) e dávamo-los a rapaziada em cujas casas sabíamos que se comiam míscaros e sanchas. Não me recordo que alguém no bairro tivesse morrido intoxicado pela nossa dádiva, mas é verdade que a medicina e os registos de óbitos não eram o que são hoje.
Pelo sim, pelo não, em minha casa a certa altura já só se comia frades. E cozinhados sempre de forma rigorosamente alquímica, com uma colher de prata dentro do tacho.

Romances imperfeitos

 


Está a começar a ver a luz do dia o meu Villa Juliana, numa edição da sempre generosa Língua Morta.

Terminado em Abril de 2019, é mais um dos meus romances imperfeitos, pistas para o que podiam ser e nunca serão, mas que (acredito nisso, senão não o editava) podem ainda assim proporcionar algum deleite estético a quem se dispuser a lê-los.

O romance divide-se em quatro livros, ou andamentos, ou capítulos, ou partes, nem sei bem, com certa autonomia entre si, mas que formam um todo com diferentes perspectivas e contributos para as histórias e a caracterização das personagens que as viveram. Foi feito a partir do prazer de narrar, do prazer da linguagem, do prazer de contar pequenos episódios e sondar as grandes histórias, do prazer ou do inelutável ímpeto de explorar a introspecção própria e a alheia.

Villa Juliana é o quarto na cronologia das edições e o quinto que escrevi. Permanecem inéditos o desditoso Aranda, sucessor do primogénito Hotel do Norte, e Salvar o Mundo, recém-nascido, com título ávido mas menor ambição do que a do apolíneo protagonista da Bíblia, cujo nascimento se celebra trocando prendas daqui a um mês. Por falar em prendas… façam o favor de oferecer este Villa Juliana apenas a quem mostre propensão para o ler.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Preâmbulo para uma conversa a propósito da exposição “48 HORAS”


«Quando gentilmente me convidaram para participar numa conversa à volta do tema desta exposição, o meu primeiro impulso foi declinar, gentilmente, o convite. Isto porque não sou especialista em nenhum dos tópicos da exposição: a raça maronesa, o transporte de mercadorias no século dezanove, a águas das Pedras ou mesmo as Termas das Pedras.

Contudo, deram-me três argumentos para aceitar o convite: nasci e cresci nas Pedras Salgadas, sou filho de um homem que dedicou a maior parte da sua vida àquela terra — e que hoje está de certa maneira ele próprio musealizado no Pedras Experience — e um dos romances que publiquei foi em parte construído a partir de memórias e experiências das Pedras Salgadas em três épocas distintas.

Aparentemente, isto qualifica-me para estar aqui hoje. Isto e talvez o facto de, durante as minhas primeiras duas décadas de vida, ter bebido tantos litros de água das Pedras que a partir de certa altura o meu organismo deixou de tolerar qualquer bebida com gás. Sou um pouco como o Obélix: caí em pequeno dentro do caldeirão mágico da água das Pedras e deixei por isso de ter direito a bebê-la. Infelizmente, tal incidente não me deu forças sobre-humanas como ao Obélix.

Depois de aceitar o convite, pensei um pouco no tema da exposição, nesta viagem de 48 horas entre Pedras Salgadas e a Régua, e a primeira imagem que me veio à memória foi precisamente de quadrúpedes, mas de uma outra espécie animal. Nem foi bem uma imagem, mas toda uma experiência sinestésica, que incluiu visão, cheiro e, antes de tudo, som. Essa memória evocou, não o gado maronês, mas cavalos. Cavalos que faziam a mesma viagem entre a Régua e as Pedras, só que em vez de puxarem carroças tinham o privilégio de viajar de comboio. (Comboio esse, já agora, movido a cavalos-vapor, num comboio ainda a vapor.)

A lembrança que mencionei retrata um momento especial de cada ano na história de Pedras Salgadas: a temporada do Concurso Hípico, um dos muitos elementos que singularizavam aquele lugar no Verão. Os cavalos que participariam nas provas, tantos deles das forças armadas, chegavam às Pedras na sua maioria de comboio e faziam o último troço do percurso, a partir da estação, pela estrada de paralelos que passava em frente à casa onde cresci. Quando as crianças do bairro começavam a ouvir ao longe o som dos cascos ou das ferraduras no granito da calçada, ninguém as podia deter, saíam todas para a rua a ver passar o desfile. Durante largos minutos, passavam, levados pela arreata, algumas dezenas de cavalos, mais altos, esbeltos e briosos do que os animais que estávamos acostumados a ver. Largavam poios como o gado que diariamente usava aquela estrada (daí o cheiro na memória), mas até a fragrância desses poios era ou parecia-nos diferente de tudo o que estávamos habituados a cheirar. Quando aquele festival dos sentidos (visão, som e cheiro) regressava para um desfile na direcção oposta, depois de terminados os dias do Concurso Hípico, uma pequena melancolia toldava o fascínio com que saíamos à rua outra vez.

E isto, esta melancolia, remete-me para a mística nostálgica de Pedras Salgadas. Talvez todas as terras tenham os seus mitos, as suas velhas glórias, mas nem todas serão territórios de fronteira, ou melhor, pontes entre diferentes mundos sociais e diferentes tempos históricos, como as minhas Pedras Salgadas foram e continuam a ser. Naquela aldeia, hoje vila, vivíamos nos anos setenta e oitenta do século XX numa espécie de portal onde o espaço-tempo se baralhava. Era um mundo rural em volta de um território murado (o Parque das Termas) onde no Verão se respirava urbanidade, trazida pelos hóspedes dos hotéis, oriundos sobretudo de famílias da burguesia do Porto. Em simultâneo, pairava em permanência sobre aquela terra a memória do período áureo da «mais bela estância termal portuguesa», como era chamada nas primeiras décadas do século XX, quando era visitada também pela aristocracia.

A existência nas Pedras, sobretudo económica, era definida em função das suas termas, e por isso as sagas familiares eram (e são) também marcadas pela memória das Termas. As famílias que ali moravam, as sucessivas gerações, na sua maioria serviam a Empresa das Águas e as Termas, nas mais diferentes profissões. Daí que, àquilo que testemunhávamos com os nossos olhos, estivéssemos sempre a adicionar as histórias e as memórias dos mais velhos. Não tinham sido vidas fáceis, as deles, mas o glamour do Parque e dos seus hotéis de certa maneira amenizava o esforço de quem muito trabalhara para pouco ter. E o convívio de perto com figuras que pareciam saídas de romances ou filmes trazia, sobretudo a posteriori, uma pequena recompensa que se somava ao salário ou à reforma. A dureza dos tempos era de certa forma relegada pelas histórias das Termas e das Águas de que cada um se fazia contador.

A singularidade das Pedras Salgadas teve um outro momento especial no pós 25 de Abril, quando uma vaga de cosmopolitismo cobriu a povoação. Como em vários outros locais do país, os hotéis das Termas foram requisitados para acolher pessoas vindas das ex-colónias, aqueles a quem na altura se chamou «retornados». Durante esse período, mais uma vez o território rural das aldeias em volta dos muros do Parque foi posto em contacto com um universo social novo, mais exótico, que lentamente se entronizou, acrescentando mundo à sociedade local.

Foram estas distintas épocas e dinâmicas sociais que procurei retratar no romance Hotel do Norte, que foi buscar o título ao nome de uns dos hotéis que existiam nas Termas de Pedras Salgadas, entretanto demolido. No romance, como na vida real, as Termas são uma fonte permanente de mistério e investigação histórica, uma fonte de arqueologia. Quem habita ou habitou naquela terra está ou esteve imerso em história e arqueologia. Até no sentido técnico do termo, porque, a partir de certa altura, com a decadência do turismo termal e o desinteresse das sucessivas empresas concessionárias, vários edifícios e espaços das Termas ficaram acessíveis à visita e ao saque de quem por ali vivia. Inúmeras das minhas memórias e fantasias de criança têm como origem espaços e objectos concretos das Termas, retirados das suas sobrepostas camadas geológicas. Cada um dos habitantes das Pedras tem dentro de si (e alguns dentro das suas casas) o seu próprio museu, o seu próprio Pedras Experience, repleto de objectos e memorabilia.

Ainda hoje, quando visito as Pedras, visito não apenas a família (quase toda ela ligada à empresa das Águas), mas aquele mundo híbrido, composto, que continua a concentrar em si, nos vestígios que ainda restam, uma multiplicidade de tempos históricos e vivências sociais. Há, de resto, um turismo de nostalgia à volta das Pedras Salgadas, não totalmente aproveitado. Quando as empresas que vão explorando o filão da água procedem à demolição de edifícios, estão a destruir e a desbaratar um património. Todos gostavam que o turismo fosse ali plenamente reabilitado, para felicidade e benefício económico geral, mas é para mim um erro que isso se faça terraplanando o que existe, mesmo que se construam no seu lugar maravilhas. Na ausência de recuperação, os edifícios deviam pelo menos ser consolidados e mantidos como testemunhos observáveis de uma era. Roma não seria Roma sem as suas ruínas.

Termino esta evocação, mas não sem fazer uma referência à raça maronesa, que também marcou a minha época de formação nas Pedras Salgadas. A minha casa ficava entre o Parque das Termas e a casa de um lavrador. De um lado, eu tinha a sofisticação e o ócio do universo balnear; do outro, a dureza e a força telúrica do mundo rural. De um lado, citando um dos textos disponíveis na exposição, estava a obra de «homens de espírito empreendedor, de largas vistas e grandes aspirações» e, do outro, espécimes da «raça maronesa, exemplo de rusticidade, resiliência e mansidão». Essas duas influências construíram também a minha identidade cultural. Em certos dias, as minhas aventuras levavam-me a descobrir os segredos do Parque; noutros, montava em carros puxados por juntas de bois iguais aos que se vêm nas fotos da exposição — e que chiavam estridentemente na subida para o combarro onde se descarregava o milho. Houve dias ainda, há que lembrá-lo também, que apanhei bosta fresca daquelas vacas maronesas para isolar a porta do forno onde a vizinha cozia pão. E posso dizer, em abono da raça, que as broas saíam saborosas.»

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Preâmbulo para uma conversa a propósito da exposição “48 HORAS”, que documenta o transporte da água das Pedras, em carros de bois, até à estação de comboios do Peso da Régua, no final do século XIX e principio do século XX. Organização: Museu Pedras Experience | Projecto Terra Maronesa.

Galeria de Artes do Auditório Municipal do Peso da Régua, 26/11/2021



domingo, 21 de novembro de 2021

Alucinação outonal

Regressando de uma caminhada outonal, resolvo, imprudentemente, atravessar a cidade para ir comprar uns víveres antes de subir ao castelo. Cruzo-me aqui e ali com pares ou pequenos bandos de seres meio cambaleantes, maltrapilhos, cabelos escorridos, roupas molhadas, cheiro intenso. Mudo de passeio. E logo a seguir mudo de rua, quando vejo ao fundo um bando maior. Intuindo de onde vêm, recalculo o trajecto, como um GPS antigo quando lhe trocamos as voltas. Mas não adianta mudar o percurso, não param de vir, por todos os lados, e penso num ataque de zombies.
Ao chegar ao centro, a que faço uma tangente arriscada para não ter de dar uma volta ainda maior, vejo no meio da praça o grosso da seita, dezenas de espécimes muito juntinhos, aos pulinhos, como a “ninhada” num qualquer filme de série Z, entoando mantras. Quando lhes passo à ilharga, como que obedecendo a uma ordem mental do titereiro que os comanda e que me deve ter cheirado, uma ala inteira deles, cor uniforme, começa a descer na minha direcção, qual claque saltitante e urrante pastoreada pela polícia em dia de derby. Num primeiro momento fico apenas fascinado com aquela mole que vive e age em uníssono, como se partilhasse o mesmo cérebro. Depois, ainda dentro do meu filme de zombies, penso que, ao avançarem tão juntinhos, só me facilitam a vida e dispensam a mira — assim me tivesse lembrado de trazer a HK21 e duas ou três fitas de munições.
Continuo para o supermercado pensando que é melhor que na caixa não impliquem comigo por levar a fruta sem sacos de plástico.
Quando finalmente saio do transe, reconheço naquelas figuras que vagueiam e agora ultrapasso estudantes a regressar da latada. Alguns levam, não o ar ufano de quem venceu uma prova de iniciação, mas o ar indiferente ou entediado de quem cumpriu uma tarefa burocrática.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Psyche e Eros

De: jacinto.na.lapela@gmail.com
Para: octavio.cesar@hotmail.com
Data: qua., 16 de nov. de 2022 23:07
Assunto: Psyche e Eros


Meu gentil amigo e confidente,

Entre as várias razões pelas que se inventaram e mandam erigir hotéis estão as dos indivíduos que lá entram para ser vistos no lobby ou no bar, as dos que lá fazem negócios, as dos que os usam para terem atenções de criadagem (gozando pelo preço da diária uma impressão fingida mas lisonjeira e reconfortante de baronia ou ducado), as dos que neles consumam encontros clandestinos, ao serviço de causas patrióticas, empresariais ou lúbricas, e até as dos que, em viagem, ali se dirigem para, coisa excêntrica, simplesmente dormir.

Eu, aos hotéis, escolho-os dando primazia àqueles plantados no meio de frondosos parques, com jardins como fossos de castelo ou muros como muralhas, hera a camuflar-lhes as fachadas e arvoredo a roçar-lhes ou encobrir-lhes as vidraças, não tanto porque precise de discrição, mas porque necessito de oxigénio, mais do que o homem comum. No que toca a respirar sou hiperbólico, exijo abastança, e pureza, sofisticação; definho se o ar é exíguo em fragrâncias botânicas e copioso em dióxido de carbono. Incapaz, por mais que tente, de fotossíntese, tenho de me limitar como os demais humanos à função respiratória, e, longe dos parques, no meio das ruas de hoje, onde se despejam gases de combustão como há séculos se despejavam penicos, mas já sem a delicadeza de um «água-vai», rapidamente fico como peixe em cesto de pescador, a abrir e fechar em vão a boca, olhos esbugalhados de pasmo ou desespero.

Acontece também que, sem que me possam ser atribuídas responsabilidades nisso, os hotéis nos parques, em regra históricos, são também aqueles que atraem a melhor clientela feminina. As senhoras elegantes são proverbialmente mais selectivas dos que os cavalheiros e se, na hora de decidir onde repousar, podem escolher entre o rumorejo sugestivo das árvores ou a noite insonorizada de um hotel de cadeia, tirado em série de um molde anódino, podes estar certo, meu caro amigo, de que verás as melhores delas inclinar-se para uma evocação de fidalguia.

Há uma semana, na Pousada de Viana do Castelo, quando passei a caminho da sala de jantar, estava sentada, por debaixo de um atroz retrato de Dona Carlota Joaquina de Bourbon — ali pendurado não sei se como elemento decorativo de uma festa de Halloween e esquecido por incúria —, uma mulher loira, de testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez por lhe pressentir, apesar de tão indolentemente enterrada num divã, uma rara graça no andar, graça altiva e ligeira de Deusa e de ave.

Quem era?, ter-te-ia perguntado se as nossas agendas tivessem coincidido naquele magnífico monte de Santa Luzia. Suponho, continuaria — julgo que continuei, para mim mesmo, antecipando já o prazer que teria em contar-te o que vi e vivi —, que nos chegou do fundo da província, de algum velho solar minhoto, com erva nas juntas da alvenaria, porque não me lembro de ter encontrado, em Lisboa ou no Porto, ou ter visto em jornal, revista ou programa de televisão, aqueles cabelos fabulosamente loiros, quase brancos, como as planícies de Castro Verde ao sol a pino de Julho — nem aquele ombro descaído como o da Psyche de John William Waterhouse a abrir a caixa doirada de Perséfone, o vestido leve descaído e cingido ao peito, modelando-o e desvelando-o na mesma exacta proporção da pintura, de um modo que esperamos ver nas passerelles de Cannes mas não em Viana.

Encostei-me à ombreira o observar o quadro — não o da Megera de Queluz, bem entendido — como se estivesse num museu com bilhete pago, gozando o privilégio do dinheiro investido, não me ocorrendo sequer a indelicadeza do que fazia. Só um minuto ou dois mais tarde, saindo, não totalmente, do torpor, me dei conta de que ela falava com o gerente, que eu conhecia já de anteriores estadias. Por que é que não me adiantei e não pedi uma apresentação?, estarás tu a perguntar-te, suspeitando, acertadamente, que hesitava. Não sei. Talvez o requinte em retardar, que fazia com que La Fontaine, dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo. O facto é que, depois da contemplação junto à ombreira, me fui a cear ao pé da minha diáfana melancolia, levantando o copo com o braço mole de uma figura de Malhoa, para escândalo do escanção que me servia.

Aquilo não foi uma renúncia, mas um adiamento, caso contrário não estaria a escrever-te; sabes que não sou dos que se andam por aí a blasonar, mas também não me deito à escrita de cartas como quem se acama para chorar no divã do psicoterapeuta. Se escrevo, há factos. E são estes:

Depois de uma noite de observação, em que julguei adivinhar num ou noutro momento uma retribuição do olhar, e não apenas a retribuição de sobrolho franzido de quem se sente mal no papel de palácio observado por boi, ou a retribuição acompanhada de gesto reflexo de quem, ainda não percebendo se é traça ou varejeira, sabe já que é para enxotar, depois dessa noite em que julguei ver uns olhos finos e lânguidos, sai para reatestar os pulmões antes do pequeno-almoço e já a minha Psyche levitava pelo terraço em direcção ao Ocidente, como se preparasse, sem necessitar do esforço e da bagagem dos parapentistas, um voo planante sobre a Praia Norte.

Percebi mais tarde, contudo, que a aparente leveza da moça não lhe vinha de ser o ente superior e gracioso que deveras era, mas de, sentindo-se moribunda, andar a ensaiar para agir como a alma que abandona o corpo, leve como pena soprada na brisa. Primeiro, pensei-a doente do organismo e condoí-me como se, ali nas alturas do monte, eu fosse uma visita num sanatório de tuberculosos. Mas nas faces e no colo da amada de Eros, que ela mantinha nu não apenas por estarmos em pleno Verão de S. Martinho, mas por hábitos enraizados de coqueteria, não vi maleitas das que corroem os órgãos; só nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um romance triste.

Meti conversa, apontando vagamente a localização do célebre Prédio Coutinho, que tinha sido demolido por mais de um milhão de euros, um milhão achatado em entulho, dizendo-lhe que também um quiosque por mim mandado erguer, na minha quintarola, para me servir de pensadouro e retiro nas horas de sesta, tinha abatido com as chuvas de Outubro. Problema de fundações, como tudo neste país, acrescentei, querendo parecer irónico, mas usando um lugar-comum. Tudo tende à ruína num país de ruínas. Depois, apontando de novo a cidade, o que se via dela, disse-lhe que a vista não tinha melhorado assim tão francamente com a ausência daquele monólito, talvez fosse preciso continuar o trabalho pelos arrabaldes em geral.

Ela ouviu sem comentar, mas também não se lançou da amurada abaixo, o que considerei uma pequena vitória. Pareceu pousar na tijoleira do terraço, como Nossa Senhora descendo sobre a azinheira, e olhou-me pela primeira vez. Contou-me então (e juro-te que tudo isto é verdade!), como se tivesse ensaiado toda a noite para aquele momento, que reparara nos meus olhares ao jantar, na forma como eu mastigava vigorosamente os rojões sem tirar os olhos dos seus ombros nus, que, sempre que levava o copo aos lábios, fixava os dela, como se fosse deles que bebia e não do balão onde me serviam o Bordeaux. Contou-me que olhou para mim e viu a providencial brutalidade dos homens e que isso lhe deu a primeira nota de alegria dos últimos dias. Confessava-mo porque não me conhecia e esperava não voltar a ver-me, mas trazia atravessada na garganta uma relação falhada e lançar-se-ia do promontório abaixo se não pudesse dizer duas ou três coisas que não ficavam bem a uma mulher.

Aquilo da «providencial brutalidade dos homens» não era para levar a mal, disse ela, era uma coisa que tinha lido em A Correspondência de Fradique Mendes, numa passagem onde Eça tinha escrito que

Só a porção de Matéria que há no homem faz com que as mulheres se resignem à incorrigível porção de Ideal, que nele há também — para eterna perturbação do Mundo. O que mais prejudicou Petrarca aos olhos de Laura — foram os Sonetos.

É que a minha Psyche do Minho estava a sair de uma relação com um poeta e fidalgo galego que a deixara muito insatisfeita. Ele era o Romeu de Fradique Mendes que, «já com um pé na escada de seda, se demorava, exalando o seu êxtase em invocações à Noite e à Lua», e ela era a Julieta que batia os dedos impacientes no rebordo do balcão e pensava: «Ai, que palrador que és, filho dos Montecchio!»

Acabara por o devolver à precedência e viera refugiar-se uns dias na Pousada, registando-se com um nome falso.

Creio que já te disse, meu caro Octávio, que os olhos dela eram finos e lânguidos — e agora estavam apontados a mim, interrogativos, insistentes. Convidei-a a visitar a Citânia de Santa Luzia a norte da Pousada ou talvez o bosque lá para os lados do court de ténis, onde havia decerto recantos encantadores — e ela aceitou.

Suponho que dirás, depois disto, que também eu uso hotéis para encontros clandestinos — e não ao serviço de causas patrióticas ou empresariais. Mas hás-de convir que não há aqui consequências que derivem de causas, apenas o acaso de estar uma pessoa em determinado sítio a determinada hora quando se viram páginas do calendário.

Deixo-te imaginar o nosso passeio e mando-te um apertado abraço com saudades.

O teu
Jacinto


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Nota: Este pastiche inspira-se vagamente em duas cartas «a Madame de Jouarre» de A Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queirós, das quais retira algumas frases.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Against All Odds

Formam um par e andam comigo há uns bons vinte e cinco anos. Juntos, somos uma fidelíssima trindade, um threesome bem aconchegado nas noites de Inverno. Hoje uma perdeu-se no caminho de ida. Só dei pela sua falta quando me preparava para regressar, horas mais tarde.
Pressenti a mágoa da perda, mas não perdi logo a esperança. Era agora de noite e era remota a hipótese de não ter sido entretanto tomada por ninguém, remota a hipótese de ter conseguido esconder-se de forma suficientemente eficaz para que a não agarrassem e fizessem sabe-se lá o quê com ela ou não a deitassem numa valeta por a acharem sem préstimo. Ainda assim, retrocedi sobre cada um dos meus passos o melhor que pude e me lembrava, de candeia na mão nua a iluminar o caminho. Quase no fim do trajecto, ou seja, quase no início do trajecto, lá estava ela, caída e espezinhada numa rua de muito movimento, com marcas de lhe terem passado com o carro por cima — mas viva. Julgo que levantou um dedito quando eu hesitava quanto ao lugar onde tinha atravessado a rua e por isso a vi.
Vinte e cinco anos depois, o par não se desfez senão por umas horas e continuamos por isso a ser um triângulo amoroso, as minhas luvas e eu. As minhas duas luvas e eu. Sem sentimentos de traição, ciúme ou amor não correspondido — e, contra todas as probabilidades, sem a mágoa da perda. Não vale a pena invocar Phil Collins, afinal.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Memorabilia

Da revista Bravo, escrita numa língua que não entendíamos mas que ilustrava algo que intuíamos, com o cheiro singular das páginas da revista Bravo, tipograficamente diferente do cheiro de tudo o que se imprimia em Portugal, respeitável ou furtivo, um poster dos U2 antes da queda, outro dos Bon Jovi (para haver nisto alguma coisa de que ter vergonha), um fio de utilidade esquecida pendurado de um prego, adereço esquecido ou falhado, por baixo uma cama de ferro e outra de madeira, duas camas desirmanadas que ainda há pouco eram duas camas para quatro irmãos, uma cabeceira de cama onde bem se vê que faltam barras verticais de ferro por onde se escapa a imaginação, uma parede que é um palimpsesto familiar, tribal, estratos geológicos de tinta e eras descascando, um quadro sobrante de outra geração com uma nesga de mar vista através das dunas (rimando com GNR, 1985, e férias em Setembro sem dinheiro), uma paisagem nevada da Suíça que não se vê na imagem como tantas outras coisas que não se vêem na imagem e no entanto estão lá, um verde-escuro na parede a escurecer inapelável e redundantemente com manchas da humidade e do tempo, uma coberta de cama florida que ainda aguentará uns Invernos a inteiriçar-se com a geada que entra pelas frinchas sem perder pétalas, uma fronha de almofada que irá na bagagem das primeiras mudanças (e duas fronhas das outras, que, miseráveis, nos largarão na primeira oportunidade), entre as camas uma mesinha de cabeceira e sobre ela um leitor de cassetes, uma cassete com os nossos primeiros sucessos e um livro, quem diria, sobre a barra do fundo da cama de madeira todo o guarda-roupa de um dos dois (travel light), as camas e os pés que marcam o ritmo assentes num soalho ventilado, nós da madeira já sem nós, buracos por onde espreitam da cave, boquiabertos (de pasmo, de fome, de raiva), os futuros brilhantes por consumar, duas guitarras, emprestadas, pois claro, por mecenas generosos, em que, com a ânsia de começar e de chegar, perdemos a pele dos dedos e deixámos marcas de sangue, duas guitarras onde rigorosos trabalhos arqueológicos ou de medicina-legal também encontrarão suor e lágrimas, suor e lágrimas e tudo isto e nós os dois, espelhados, a olhar o destino de frente ou a enfrentá-lo de olhos fechados, tu e eu, penteados e tudo no ponto — a ensaiar para o Live Aid.



domingo, 7 de novembro de 2021

"Olhò Toino Escadeirado"

Liguei a televisão para ver a final do English Open entre John Higgins e Neil Robertson e durante a sessão passei pelos canais da RTP. No primeiro, num programa chamado “O Pimba É Nosso”, Quim Barreiros e uma senhora cujo nome não fixei discordavam sobre a possibilidade de trocarem mutuamente de gaitas. No segundo, num festival chamado FNAC Live Lisboa 2021, tocava um grupo cuja estética visual e musical me fez recordar gloriosos bailes no pós-25 de Abril com grupos como o 25.ª Hora. Ainda fiquei à espera de ouvir a então omnipresente “Nho Antone Escaderode” que a todos soava como “Olhò Toino Escadeirado”, mas o programa, ainda que a noite da RTP parecesse uma viagem no tempo e uma visita à barraca das cassetes de feira, não aceitava discos pedidos telepaticamente, e por isso, depois de ver como a classe média urbana do século XXI se encontrou com os foliões de um Carnaval de sociedade recreativa dos anos setenta, numa espécie de vitória de Pirro do proletariado, lá me resignei a ir ver como Higgins perdia.

O casaco de angorá

Todos os parques que se prezem têm figuras mitológicas. Aquele que atravesso para ir trabalhar ou quando resolvo correr junto ao rio também as tem e uma delas está viva, cruzamo-nos com certa frequência, até já a mencionei em dois ou três destes textinhos. Faz-se geralmente acompanhar de um aparelho de música dentro de um saco de plástico que debita êxitos melancólicos dos setenta e oitenta ou, talvez quando o humor está mais espevitado, música de baile brejeira. O volume também varia com os dias ou os humores, por vezes elevado a uma agressividade punk que não tem correspondência no rosto do portador. Hoje estava baixinho, surpreendentemente baixinho, e não foi a primeira coisa em que reparei.
Olhava um casaco à minha frente que, sendo mais rosa do que púrpura, ainda assim me fez pensar no casaco de angorá de Agnes, a mãe alcoólica de Shuggie Bain, protagonista do livro homónimo de Douglas Stuart sobre uma infância dura em Glasgow. Uma cabeça miúda encostava-se ao ombro daquele casaco e o par ia de mãos dadas, carinhosamente. Foi quando os ultrapassei que ouvi a música e vi o saco.
Era uma imagem inesperada, o habitante solitário e melancólico do parque — talvez, como Shuggie, vítima de bullying na infância, se já tinha então aqueles modos tímidos e invulgares — de mão dada com uma mulher vestida de angorá. A literatura a irromper pela vida real.
A mulher não tinha idade para ser mãe do homem da música e não tinha ar de alcoólica, mas a ternura recíproca surgiu-me ali surpreendente e redentora (e efémera) como em certas passagens de Shuggie Bain.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Anjos nada tronchos

Vejo alguns vídeos do novo disco de Caetano Veloso e ocorre-me que há neles uma certa afinidade com vídeos dos dois últimos álbuns de David Bowie, The Next Day e Blackstar. Não me tomem por agoirento ou mórbido, não falo de pressentimentos ou presságios. O que eu vejo, pelo contrário, é dois génios a quem a idade ou a fragilidade não impedem o ímpeto criativo e inovador, não impedem, enfim, a criação de obras geniais. Dois génios que também não temem expor as marcas do tempo ou da fragilidade, no rosto ou na voz ou nos gestos dos videoclips, antes os adicionam ao material com que moldam a obra, como o elemento que ali se ajusta para conseguir uma nova e bela harmonia na soma das partes. Génios que não se limitam a viver o seu tempo e os tempos, mas antes marcam o tempo, com a forma como absorvem e fundem influências e digerem o zeitgeist, sintetizando algo novo e contundente.
Os discos de David Bowie soam noir e a espaços o de Caetano também, mas, sendo brasileiro, ele encontra sempre lugar para o samba, mesmo numa música como “Anjos Tronchos” (nem que seja por dois ou três preciosos e significativos segundos — aos 2´57´´).

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A careta de Evelyn Waugh

Kingsley Amis não desiludiu: A Sorte de Jim é a sátira hilariante que esperava. As últimas 20 ou 30 páginas são magistrais. Senti-me particularmente redimido quando o protagonista — que adopta ao longo do livro, de acordo com as situações, uma vasta colecção de esgares e expressões burlescas — ensaia «a sua careta de Evelyn Waugh». Kingsley Amis a usar Evelyn Waugh como careta é simplesmente perfeito. A mera evocação até me faz suportar a musiqueta que, vinda em ondas de algum bailarico de finados, me tenta agredir os ouvidos através da janela, como os pássaros de Hitchcock.

Problemas do teatro em Portugal

Raramente falo aqui de assuntos da minha área profissional, mas desta vez reincido, por mera irritação. O encenador Jorge Silva Melo (que também aprecio, já agora) tem-se queixado com frequência das curtas digressões dos espectáculos em Portugal, e isso é triste, de facto. Mas o lamento vem de quem em simultâneo assinala que, de Agosto até à data, andou por onze teatros (onze!). Não é assim tão pouco, acreditem. Talvez por isso o foco desse post do encenador, que podia apenas ter celebrado o feito, se virasse para outra questão: a magna desfaçatez de «apenas» quatro directores (que identifica) desses onze teatros terem ido falar com a companhia (ou com ele, não sei bem). «Vergonha», «falta de respeito» foram os expectáveis (e talvez esperados) comentários ao post.

Ora, eu pensava que o respeito se manifestava de muitas maneiras possíveis e que as hierarquias e embaixadas diplomáticas se reservavam para rituais protocolares. Há alguma falta de dignidade em ser uma companhia acolhida por empenhados técnicos e produtores — e pelo público de uma cidade? Está o director de um teatro, para além das suas específicas funções profissionais, imbuído de alguma dignidade que os seus colegas na equipa não tenham?

Já lá vai o tempo em que a chegada à província de uma companhia ou de uma diva de Lisboa era acolhida pelas autoridades civis, eclesiásticas e a fanfarra dos bombeiros, se não houvesse regimento militar nas proximidades. Os verdadeiros problemas do teatro em Portugal são mais prosaicos e contemporâneos.

sábado, 30 de outubro de 2021

«Por onde andará a jovem literatura portuguesa?»

Rentes de Carvalho perguntava há dias no seu blogue (sim, ainda o espreito de tempos a tempos, como certos católicos vão à igreja, já não porque acreditem em milagres ou apreciem o consolo da tradição, mas porque ainda sentem o dever da penitência), Rentes de Carvalho, dizia, perguntava há dias no seu blogue «por onde andará a jovem literatura portuguesa? Porque não há por aí explosões de talento literário?». A pergunta é retórica, claro, doutrinária, idiossincrática, e por isso se apressa a responder a si mesma. Se fosse genuína, poderia responder-se-lhe, por exemplo, com um livro de Frederico Pedreira e outro de Manuel Bivar. Com A Lição do Sonâmbulo poderia tentar referir-se o maravilhamento da toada, sugerir como o ritmo, o timbre, a estrutura, a harmonia, a forma da linguagem ao serviço da evocação da memória podem ainda, cem anos depois de Proust (milhares depois de Homero), e com materiais comuns, combinar-se e produzir novas melodias que nos fascinam como a sonata de Vinteuil fascinava Swann. Com A Charca, por outro lado, poderíamos falar verdadeiramente de explosões, não apenas de talento literário mas também de percepção, da inquietante lucidez de um olhar a partir do mundo rural (mas profundamente contemporâneo e urbano) que, aliás, até se encontra em vários pontos com a visão desassombrada e desromantizada de Trás-os-Montes do próprio Rentes de Carvalho, mas que questiona mais agudamente o mundo do que as pregações de cartilha do Tempo Contado.



«O tempo da tirania dos programadores»

A meio de uma conversa com interesse para quem tem curiosidade pelo mundo das artes performativas em Portugal o coreógrafo Paulo Ribeiro, que aprecio, disse uma frase que o JN, não escapando ao zeitgeist, usou como título da entrevista: «Vivemos o tempo da tirania dos programadores». A dramatização excessiva do tópico, o impulso para criar um sound bite, é, portanto, do jornal. Imagino que a expressão não pretendesse lançar um anátema sobre todo um conjunto de pessoas com circunstâncias, trabalho e sensibilidades diferentes, mas a frase feita título junta-se a outras afirmações igualmente negligentes que a espaços são proferidas na esfera pública, como aquela de igual teor que num célebre programa de televisão a meio do ano passado uniu figuras tão improváveis como Maria do Céu Guerra e Álvaro Covões, com a aparente aquiescência de Graça Fonseca. Merece por isso uma reflexão.

Lê-se na entrevista que os programadores, quiçá «insensíveis», são uns tiranos porque na sua maioria «não respondem», deixam que as ideias se vão «desmembrando na sucessão dos pequenos poderes» (de que vivem reféns, pode presumir-se) e «cometem o erro da voragem» da descoberta de novos talentos. É curioso que em geral os novos talentos, quando têm a sorte de ser entrevistados, se queixam da escassez de oportunidades — e é com estas e outras peças que um programador tenta quotidianamente montar um puzzle. Porque um programador, quando empenhado no seu ofício, tende a ser um laborioso montador de puzzles, de quebra-cabeças constituídos por peças abundantes e multiformes, irrequietas, nem sempre facilmente discerníveis e que não raro se atraem e repelem de moto próprio.

De acordo com um texto da Espaço Público, associação profissional de programadores, o programador cultural é um «mediador» que trabalha «no cruzamento das esferas cultural, social, estético-criativa, comunicacional, económica e política» e opera a dois níveis ou assume duas funções: «como canal entre o campo da produção artística e o da recepção cultural (os públicos) e como facilitador ou intérprete nas relações entre as comunidades artísticas e as entidades tutelares dos espaços ou projectos».

Na verdade, a minha opinião é que um programador é alguém sobretudo condenado à frustração. Não é um frustrado, como na literatura se diz sarcasticamente que um crítico é um escritor frustrado. Alguns programadores desenvolveram em algum momento eles próprios experiências criativas ou artísticas, mas a sua frustração não vem projectada de um putativo fracasso dessas experiências. A frustração vem da inerente, inexorável, inevitável incapacidade de se dar por satisfeito e de satisfazer plenamente os outros com o seu trabalho. Não é apenas a impossibilidade notória de fazer a quadratura do círculo quanto a acolher os interesses dos diferentes artistas e públicos, é sobretudo a frustração, mais dolorosa, de não ter recursos, calendário e por vezes público suficientes para produzir um ciclo de programação capaz de reunir todas as ideias e propostas que a dado momento transbordam da sua carteira de projectos a considerar.

É que, independentemente do que pensa o país mediático e o público absentista, e do que pensam os criadores uns dos outros, Portugal (que também tem muitas estruturas de criação supérfluas ou medíocres e quem exija veementemente um lugar para elas), Portugal tem nas mais diversas áreas artísticas uma boa quantidade de criadores de talento e com projectos merecedores de palco — mas não há um único espaço de programação que seja capaz de apresentar todas as propostas merecedoras dele. Quando alguém se queixa de que os programadores «não respondem», esquece-se certamente desta realidade e do esforço desmesurado que é exigido a um programador para corresponder a todas as solicitações.

Programar é, é claro, seleccionar, mas é também, portanto, ter de lidar com a mágoa de deixar de fora. Programar é mais sobre incluir do que excluir — a exclusão não é algo a que um programador se dedique, muito menos por sadismo, travessura ou tédio. Um programador, quando entusiasmado com a função, não ocupa o seu insuficiente tempo a decidir quem fica de fora, mas (com uma alegria que não afasta a insatisfação e a tristeza pelo que se perde) a escolher (nas circunstâncias e com os meios que são os seus) quem entra. E o contentamento pelo que consegue incluir no programa é breve, porque logo regressa a melancolia de saber que o seu é um trabalho de Sísifo e que nem sequer consegue rolar o raio da pedra até meio da encosta.

Dada a aparente impossibilidade de os programadores deixarem de parecer «tiranos» aos olhos de quem não é programado — aos olhos de quem, no seu próprio momento de frustração, é por vezes incapaz de uma visão holística do panorama artístico —, o que fazer? Derrubar o «tirano»? É uma hipótese que perversamente me atrai, devo dizer. Mas parece pouco sensata. De uma forma ou outra, a polis há-de seleccionar, escolher. Não o fazer, é entregar ao acaso as decisões, ou, coisa ainda mais arriscada, é entregar as decisões a outras formas de tirania, porventura mais viciosas ou ainda mais exclusivas, menos preocupadas em garantir possibilidades de escolha ao público. A busca do graal da imparcialidade (que no fim da jornada resulta, na verdade, no acriticismo e na aleatoriedade) seria talvez obtida substituindo-se nos espaços culturais a figura do programador pela do recepcionista, um digno amanuense como os que, nos consultórios, atendem os telefones e respondem aos e-mails, preenchendo os buracos da agenda por ordem de chegada dos pedidos de marcação. Claro que desta forma, como sabe quem passa pela experiência de marcar consultas no SNS, cada artista, como cada cidadão, arriscar-se-ia igualmente a ter de esperar meses ou anos pela sua vez de ser atendido — e em geral sem a alternativa de um sector privado. E a quem atribuir nessa altura culpas pelo infortúnio? Ao amanuense? Ao sistema? À vida, talvez.

Abdicar tão-só da mediação, como descobrimos dolorosamente com a desvalorização do papel da imprensa no mundo actual, não é a fórmula mágica que cria mais espaço para a qualidade.


P.S.: Sei que outros experimentam sentimento idêntico, mas este não é um texto corporativo, apenas a expressão, de resto desnecessária e vã, de um homem e as suas circunstâncias.

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A entrevista do JN:
https://www.jn.pt/artes/paulo-ribeiro-vivemos-o-tempo-da-tirania-dos-programadores-14220416.html?fbclid=IwAR2FCzVCPfwPqTpLcPeXJ0nIPstWXb56rG4vn3HMRKCYcJQnUR6Aoc_elkM

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

compreender o velho cemitério incómodo e sinistro da família

«Nos meus primeiros anos de adulto, frequentava durante os meses quentes, com a regularidade e a entrega de um rito pagão, a curva onde um rio se alargava e permitia banhos. Nesse tempo, costumava pensar que gostaria que as minhas cinzas fossem espalhadas ali quando morresse, antes da pequena queda de água, onde havia uma represa que se podia atravessar como poldras.

«Falava muito na morte mas não creio que pensasse mesmo nela, não com o desassossego de quem realmente a considera, o susto de quem a teme, o medo ou a terrível frustração de quem a vê próxima. Muito menos com o alívio de quem vislumbra nela uma solução para as inquietações. Não as tinha naquela altura capazes de invocarem tais pensamentos. Era uma forma de sublinhar o meu apreço por aquele local, de tentar prolongar no tempo ou projectar no futuro o prazer que me dava estar ali.

«Anos mais tarde, quando voltei a visitar aquele território, achei o sítio acanhado, sem horizontes, voltado para si mesmo, demasiado próximo de uma estrada muito circulada. Mesmo se descia ao rio não encontrava o éden anterior, mas a margem desolada e sem atractivos de um pequeno rio cujo caudal diminuía com o decorrer do tempo. O meu olhar e o meu pensamento já não se conseguiam circunscrever, com satisfação, ao vale estreito onde corria o rio e que antes me bastava como se tivesse a vastidão onírica de um vale jurássico: subiam as encostas e erguiam-se nos céus como se transportados por um drone ou acompanhando uma operação de zoom out no Google Earth. E notavam que as dimensões do espaço e as distâncias relativas eram tão exíguas que me faziam sentir limitado, aprisionado, restrito como um cão ao perímetro da sua corrente.

«Na época em que frequentava o rio costumava pensar assim da aldeia onde morara antes, se me vinham recordações dela. Temia ter de regressar um dia para viver de novo naquele mundo ainda mais pequeno, primitivo, atávico. Lembrava-me dos dias em que por alguma razão faltava às aulas e ficava em casa para testemunhar involuntariamente o quotidiano laboral da aldeia, e a memória desses dias era constrangedora, continha a ameaça de uma punição, de um exílio para os limites estreitos de uma vida de campo de trabalhos. Estava habituado a pensar nos dias pós escola como de festa, de lazer e sonho, de expectativas e esperanças, de promessas excursionistas e exploratórias. A escola continha em si janelas para um mundo vasto mas os tempos livres e festivos, sem obrigações nem trabalhos, propícios ao exercício de sonhar e experimentar o futuro, imaginar novos horizontes e ensaiar quebrá-los, eram os terraços onde as vistas realmente se alargavam.

«Ficar em casa em período laboral, se não estivesse doente, significava, pelo contrário, integrar-me sem apelo nem entusiasmo nos dias e nos trabalhos da comunidade. Não eram os trabalhos e vivências de uma aldeia em si mesmos que invocavam a sensação de castigo, de derrota, de prisão, mas a sua obrigatoriedade, a obrigatoriedade dos seus horários, a sua circularidade, o calendário sem avanços efectivos, a sua repetição, o eterno retorno e a sua aparente inutilidade, como os trabalhos de Sísifo; era a sua incapacidade de nos incluir no processo de desvendar e desfrutar o mundo. Durante anos, a memória dos cheiros, dos sons, dos próprios céus limitados do Inverno na aldeia, das intermináveis colunas de fumo de queimadas e lareiras com os seus potes invariáveis, das conversas rotineiras, dos hábitos cíclicos e transmissíveis interminavelmente, essas memórias eram suficientes para sustentar em mim o impulso centrífugo e uma ânsia desesperante de modernidade e futuro.

«Pensar na aldeia fazia-me também pensar no cemitério, onde se depositavam todos os corpos, todas as almas de quem tinha ali habitado, famílias inteiras sobrepostas como camadas geológicas desde tempos imemoriais, estratos compactados onde se lia a história de uma tribo, de uma civilização, em que na fina membrana que representava uma era antiga, depositada no fundo da sepultura, se liam os mesmos episódios que registava um corpo acabado de deitar.

«O cemitério ficava numa encosta e era orientado a Norte, como se virado para o magno ponto cardeal, o que ordenava o mundo e lhe dava um sentido cartográfico, o mantinha de pé, sem más inclinações geográficas ou morais. Envolto por bosques de pinheiros, raramente recebia sol, com aquela sua localização imprudente ou punitiva, que denunciava talvez um imaginário de crenças tenebrosas por oposição a outras luminosas e benévolas. Eu, que estava vivo e amava o Sol, sentia-me apátrida naquele cemitério quando tinha de o visitar. Não me incorporava naquela religiosidade, imaginava-me antes membro de uma seita pagã das que adoravam o Sol inclemente do deserto ou lhe erguiam santuários banhados pelos Seus raios a todas as horas do dia.

«Num dos meus momentos de evocação da terra-mãe decidi fazer com urgência, antes de ser apanhado desprevenido e encerrado numa eternidade exígua, claustrofóbica e sem exposição solar, um testamento peremptório em que condenava num parágrafo apocalíptico os que me amassem, se me amassem, a cremar o meu corpo morto e a espalhar as cinzas no mais vasto oceano, lançando-as não nas águas paradas de uma baía mas para as correntes marítimas a partir de um cabo, de um desses que em algum momento da História se chamou finis terrae.

«E contudo, decorridas mais duas décadas, é no território da infância e da adolescência, não ainda e talvez nunca no dos vinte anos, que deposito o que me resta de energia de viver. Não, é certo, no território físico, procurando-o com a esperança de que permaneça intocado, mas no da memória, ocupando os melhores momentos do dia a evocar um tempo que antes sentia como lastro ou fantasma com a missão de me assombrar o futuro. Temo — ou anseio, já não sei bem — que hei-de ocupar uma parte do tempo que me resta a compreender o velho cemitério incómodo e sinistro da família e, finalmente, a evocá-lo como a ilha última do meu éden pessoal.»

[Excerto de Salvar o Mundo.]