domingo, 22 de fevereiro de 2015

«António Lobo Antunes. Ascensão e queda do ‘enfant terrible’ da literatura portuguesa»

Não me chateia nada que a reportagem do Observador com o título acima possa regozijar-se com a “queda” de Lobo Antunes. É apenas ridículo que, apesar de ter em si mesma, e com certo mérito jornalístico, suficientes elementos para perceber que passar de 100 mil exemplares vendidos para poucos milhares não é uma “queda” literária (nem o é aos olhos dos leitores), a reportagem não deixe de insinuar esse sabor de derrota (desde logo no título).
A única coisa estranha em relação a Lobo Antunes era precisamente a venda de milhares de exemplares. Alguém que viva neste país, que saia à sua rua neste país e que conheça os seus conterrâneos terá em algum momento achado possível haver em Portugal dezenas de milhares de pessoas a ler Lobo Antunes?
É certo que o próprio escritor, que neste particular do ego se aproximou muitas vezes do inefável Rodrigues dos Santos, acreditou ou pareceu acreditar nessa possibilidade de ter um estádio-da-luz-com-terceiro-anel a lê-lo. Mas não, não há nem nunca houve em Portugal essa multidão furiosamente interessada em ler Lobo Antunes — nem, de resto, em ler regularmente seja o que for de literatura (ou ensaio ou história ou o que quer que não seja lixo).
Por outro lado, percebo as saudades de um tempo em que escritores como Lobo Antunes podiam ser best-sellers em Portugal. Isso impunha um certo respeito, balizava as coisas, ajudava a manter a bicheza literateira à distância, higienizava o ambiente. Hoje, a literatura de cordel — muita dela em regime de franchising, como a ancestral —, tomou conta do mercado e da sociedade como nunca na História — mas perdeu os velhos, tradicionais e sobretudo justos, adequados, complexos de inferioridade. Também porque já ninguém tem vergonha de se confessar leitor-não-praticante ou mesmo acérrimo analfabeto. E esta "emancipação" popular não é um progresso. Nem democrático nem de espécie alguma.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

DG ARTES (3)

Justiça lhe seja feita pela magnanimidade. Mas por que raio isto não está devidamente regulamentado, com prazos, poupando-se o carimbo precoce de “não admitida”?

DG Artes (2)

De resto, a própria DG Artes chumbaria com facilidade se fosse julgada pela sua perspicácia e competência planificadora e administrativa. Há dez anos que ignora a existência de uma rede de infra-estruturas teatrais no país — e ajuda assim alegremente a que uma parte delas vá deixando de ter como prioridade a arte e se dedique ao folclore revivalista e salazarista dos anos 60. Depois de ter aprovado (com excessiva magnanimidade e displicência) um conjunto de obras, o Estado foi incapaz de implementar uma rede nacional de teatros. Mas o certo é que ela existiu (com absoluta informalidade e voluntarismo autárquico, e com deficiências estratégicas e artísticas graves, claro). Contudo, a DG Artes não mudou a sua lógica de funcionamento, como se vivesse num mundo à parte (talvez viva). Quando resolveu criar há dois anos a modalidade de Apoios Tripartidos (companhias / DG Artes / administração local), numa lógica aparente de descentralização e de criação de redes regionais, fê-lo, por exemplo, sem uma palavrinha aos teatros municipais que operam no território, muitos deles substituindo-se ao Estado central na prestação de um serviço regional (supra-municipal, portanto, mas com orçamento municipal). Eu sei que é custoso um tipo levantar-se da cadeira para conhecer o território de um país, mas a Secretaria de Estado da Cultura e a DG Artes não deveriam ignorar que têm interlocutores in situ.

A lógica mangas-de-alpaca da DG Artes

Com a sua lógica de mangas-de-alpaca, a Direcção-Geral das Artes acaba de recusar a admissão a concurso de alguns dos bons projectos artísticos portugueses e, simultaneamente, de admitir outros de interesse menor.
O rigor teutónico e kafkiano do processo administrativo foi a forma que a DG Artes encontrou de eliminar à cabeça uma boa parte dos candidatos, aproximando-se deste modo mais facilmente das suas quotas — sem ter de reflectir sobre arte ou interesse cultural. Tanto assim que a sua recusa é (ou pretende ser) definitiva, contrariando, de resto (se não ilegalmente, deselegantemente) toda a normatividade do procedimento administrativo. No stress de chegar ao fim do labirinto do Minotauro você trocou o nome de um ficheiro e fez o upload errado? Azar, a DG Artes não condescende nem lhe dá possibilidade de provar que tem o documento certo.
Seguindo os critérios da DG Artes, não é um cenário impossível ver o território português daqui a uns anos com uma razoável cobertura de experientes administrativos — e deserto de arte.
Não se veja aqui a apologia do desleixo ou da incompetência administrativa. É claro que as companhias devem prestar contas e devem gerir com rigor e parcimónia os dinheiros públicos. Mas é também evidente que devem continuar a ser… artistas. Se a arte fosse o mais importante para a DG Artes, o seu concurso dava naturalmente possibilidade de supressão de lacunas, de correcção de documentos, como qualquer repartição menor do Ministério das Finanças o faz. Aplicasse multas, por exemplo, mas não excluísse com uma frieza de autómato. O quadro técnico e político da DG Artes pode não gostar de artes — mas devia saber que está ao serviço delas.

P.S.: Também há bons projectos admitidos, a frieza de autómato permite-o, ainda não chegámos à fase do cinismo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Referências culturais

Notar a frequência com que os meus escritos evocam banda desenhada, música pop, cinema ou livros pouco recomendáveis remete-me para a pergunta certeira que Nuno Costa Santos faz no Marginal Ameno
«como é que alguém com 40 anos pode criar hoje — nas escritas, nas representações, nas artes em geral — fingindo que não cresceu a ver televisão e a jogar ZX Spectrum? Como se viesse de um mundo de abstracção só com referências cultíssimas. Recusar é uma coisa, fingir que nunca se fez um zapping antes de ir dormir é outra.»

Na verdade, e não desfazendo, não andamos assim tão longe dos helenistas e dos latinistas de gerações anteriores. Eles evocam As Metamorfoses e nós Asgard, versão Marvel. Eles falam da Odisseia de Homero e nós da saga sobre a ascensão e queda do Daredevil, por Frank Miller. Somos todos bons rapazes, amantes de seres fantásticos e aventuras. Uns, nostálgicos de canções napolitanas, outros, de 16 Lovers Lane. No fundo, ninguém sai da adolescência, tenha ela como referência a Renascença ou os eighties.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Uma semana de férias

Sempre gostei de gente encurralada. Assim de repente lembro-me de um pelotão americano no Estreito de Bering à espera dos russos num filme sobre a terceira guerra mundial, Tex Willer numa colina à espera dos índios, uma multidão sozinha em casa à espera de zombies em ene variações cinemáticas sobre o mesmo tema e um escritor de asa ferida atolado numa cabana setentrional à espera do degelo da Primavera. Fascina-me a tensão da espera. Ou talvez me fascine a sensação de isolamento, de solidão extrema, tipo último homem na terra face ao seu destino. Eis porque gostei de Eu Sou a Lenda (até aparecerem outros humanos).
A neve é um bom contexto para histórias de encurralados e/ou solitários. Eu, que me vejo com frequência masoquista na posição de encurralado, odeio que não neve neste país de brando clima. Abasteci a despensa de conservas para o dia em que nevasse para uma semana e de cada vez que recorro a elas é apenas porque há uma crise económica, forma pífia de encurralamento.
Um dos males de se ser adulto fora da ficção é estar-se encurralado e não se poder simplesmente ficar em casa à espera dos zombies, como Penélope à espera de Ulisses mas com menos carinho e mais zagalotes. Quando se é adulto e não se é personagem de um filme ou de um livro, como é minha triste condição, um tipo tem de sair para conviver com os zombies, fingir-se um deles, agir como eles, com o mesmo tipo de prazeres e ambições.
Por isso quando, a propósito de férias, me perguntaram qual o meu local de sonho para uma semana em Portugal eu respondi sem hesitar: «a Herdade da Coitadinha, Barrancos».
Que era um fim-de-mundo, disseram com pasmo depois de eu explicar onde ficava. Exactamente. Se o limite é o território nacional, não vejo onde possa desejar mais estar do que naquele belíssimo cu de judas.
Não falo de cor. Já lá estive e sei bem o quão isolado e desejavelmente pouco frequentado é o sítio. Estudei-lhe a geologia e parece-me solo pouco consistente. O castelo de Noudar ali perto já viu algumas das suas fundações cederem com inveja da Torre de Pisa. Tenho esperança de que quando lá me conseguir hospedar por uma semana se abram entre mim e a civilização barrancos como fossos de profundidade Senhor dos Anéis(não aquelas valazitas que hoje dão nome ao sítio) e que a assim a minha semana se torne residência definitiva. Confio na bondade humana para me fazer descer víveres em pára-quedas, mas estou disposto a enganar-me nesse item e a viver de raízes.
Ah, ir uma semana para a Herdade da Coitadinha e já não sair. Livros e uma carabina, eis a minha bagagem. Livros para as necessidades básicas da vida e a carabina para a eventualidade de apodrecidas visitas indesejadas. Isso e uma nevada canadiana em Barrancos. Mas canadiana de Grise Fiord, não de Toronto. Nos terraços da Herdade da Coitadinha, que já experimentei, está-se como nos terraços de Davos (e o tempo é igualmente relativo).

Não peço muito mais para as minhas férias. Talvez uma mantinha a cobrir as pernas, se realmente nevar.

Duetos



Todas as décadas têm os seus duetos felizes. Peter Gabriel abraçou-se a Kate Bush em “Don’t give up” (1986). Nick Cave, a PJ Harvey em “Henry Lee” (1996), tendo depois Polly Jean cometido infidelidade com Thom Yorke em “This mess we’re in”(2000).

“Strange weather” (2014), original de Keren Ann que junta Anna Calvi e David Byrne, tem a felicidade de fazer uma ponte entre os sixties e o século XXI, e não é pela participação de David Byrne (aliás, da geração de 70). Anna Calvi é uma excelente criadora também pelas reminiscências velvetundergroundianas da sua voz e da sua guitarra.