sexta-feira, 30 de agosto de 2013

«As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro»

Num episódio do Bartoon, a tira do Público, lê-se: «As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro.» Nada mais verdadeiro e definidor.
Ainda que a famigerada lei de limitação de mandatos autárquicos tenha feito saltar fora um ou outro dinossauro menos motivado, a verdade é que sobraram demasiados, e dos mais aguerridos. Mas pior do que isso é sabermos que tantos dos novos candidatos às autarquias não têm nada de novo a acrescentar ao admirável mundo antigo, vão seguir exactamente as pegadas dos dinossauros que os antecederam. O país vive uma crise histórica. Há razões externas para a crise mas há igualmente uma culpa colectiva que não se devia alijar e que passa também pela forma como muitas autarquias são encaradas e geridas. Em tantos locais, demasiados locais, as eleições autárquicas continuam a ser meros combates pelo poder entre dois clãs ansiosos por distribuírem entre si os despojos da conquista. Chamam-lhe democracia, mas é um lapsus linguae. O jogo não remete para a Grécia, mas para o império Maya: os vencedores, se puderem, arrancam as cabeças aos derrotados.

De resto, o Governo não imita menos o passado nem é mais isento no que se refere a alimentar o clã laranja. Nisto, como em quase tudo, Passos Coelho faz exactamente o oposto do que disse. E mesmo assim consegue enganar os ingénuos Lombas desta vida, rapazolas de fortes convicções ideológicas que não conseguem reconhecer um charlatão ou um freteiro a um palmo do nariz se ele lhes sussurrar ao ouvido passagens mansas da cartilha. Para estes nerds doutrinários — como, ironicamente, para as claques partidárias que eles desprezam —, um cacique não é um cacique se for o nosso cacique ou falar com certa assiduidade das coisas que achamos certas.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

«Toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor»

Levantam-se da mesa, deixam os homens na sala e vão para a varanda fumar, com os copos pousados num móvel contíguo. Já não se viam há algum tempo, possivelmente desde as últimas férias de Verão, talvez desde as anteriores. Duas delas falam da terceira como se ela não estivesse presente, mas não a estão a excluir da conversa. Estão a explicar-lhe, quase de forma encenada, o que pensaram e disseram entre elas sobre a amiga quando a viram, cada uma em sua ocasião. Que não podia ser, não cresciam assim. Era coisa que se tinha ou não se tinha, e ela antes não tinha. Não como agora. A primeira conta que, logo que viu a Clara (chamemos-lhe assim), lhe atirou de imediato aos mãos ao peito. Não esteve cá com coisas. Era como São Tomé, precisava de ver com os dedos para crer. Clara tinha defendido, com o seu narizito indignado, que eram naturais, mas ela não acreditava. E o tacto não lhe mentia. Clara anui, entrando na conversa: sim, as coisas tinham-se passado daquele modo. Ela tinha querido brincar durante um bocado, embora soubesse que as amigas acabariam por perceber. Mas não lhe ficavam bem?
Tinha sido depois de se separar do Júlio. Ele não se fora embora por causa das mamas dela, mas Clara precisava de se concentrar em alguma coisa para esquecer o desgosto. E se o pensou melhor o fez. Já tinha lido muito sobre aquilo, como todas, os métodos, os riscos, quem pôs e quem não pôs.
Seguem-se alguns minutos em que as três esgrimem a sua bibliografia, em diferentes tons de rosa mas no mesmo papel couchéou acetinado, sobre o assunto.
Depois desse interlúdio estético-medicinal, Clara retoma a questão anterior. O desgosto amoroso não era assim tão mau, talvez ela tivesse avançado para a cirurgia de qualquer modo. O desgosto, aliás, era parte da vida das pessoas, «toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor».

Ter-se-ia ela enganado? Teria querido dizer que toda a gente, num momento ou noutro da sua vida, tinha, naturalmente, um desgosto de amor? Ou estaria a socorrer-se de um discurso reivindicativo, o povo pela voz dela a reclamar direitos iguais aos dos ricos, mesmo que esses ricos sejam os das novelas ou os dos romances de Margarida Rebelo Pinto? Umas mamas de silicone e um desgosto de amor podem ser anseios legítimos e equiparáveis da classe operária?

Depois voltam à questão mamária, com gargalhadinhas e apalpões (agora em directo), e o escriba, de educação antiga, tenta ainda com mais denodo (mas não com melhores resultados) concentrar-se na leitura.

domingo, 25 de agosto de 2013

Baile copular

A churrasqueira no Verão põe uma esplanada e música em colunas. A música que as colunas debitam é muito obviamente destinada a atrair ouvidos emigrantes, convidando-os a gastar parte das suas economias do ano nuns grelhados à maneira. No entanto, de forma menos óbvia, a música que se ouve não está acertada com o repertório pimba actual, há uma décalage, ou talvez uma nostalgia de quem foi emigrante no seu tempo. A estética dominante é a de Linda de Suza, o nacional cançonetismo da diáspora dos setenta, uma ou outra música tradicional. A emoção em vez do trocadilho e da alusão sexual obsessiva. E isso é quase comovente, quase desclassificamos como foleira a música que da esplanada abaixo da janela vem trazer ao nosso próprio jantar pequeno-burguês memórias de romarias e bailaricos, de quando disfarçávamos de subversão a afinal indisfarçável adesão ao ímpeto bailador, o de colar ao nosso um ritmado corpo feminino, na evocação ou antecâmara dos prazeres sensuais que é na realidade o baile*.


*E, no sentido desta exegese, o slow era a antecâmara do sexo tântrico.

Titanic

Há uma nuvem de fuligem a cobrir tudo, encostas e aldeias. Cinzas caem do céu. A lua vê-se cor-de-laranja, cor-de-fogo, através deste nevoeiro febril, lúgubre. Ouvem-se sons de romaria feroz de onde sopra o vento e vem o fumo e ardem os montes — e algo nisso lembra a orquestra do Titanic.


*Inspirado por C. Chaves 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara ou A curiosidade no processo evolutivo

Depois dos casais vice-versa (registados aqui), temos os casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara. O seu amor e a sua identificação cumprem-se na forma como se inclinam para as mesmas curiosidades, soprados pela mesma brisa. Como olham levando a cabeça, o pescoço e os ombros atrás do olhar. Como parecem atravessar o vidro da montra que espreitam, esticar a cabeça e o corpo para entrar nas portas dos estabelecimentos que cruzam sem no entanto abandonar o passeio diletante pelas ruas da cidade. São a versão transeunte do fab four homem-elástico, a sua versão casal-em-passeio-nocturno-pós-prandial. Vemo-los esticar o pescoço para os pratos e os menus de quem ainda come nas esplanadas que eles cruzam; virar em sincronia aquática as cabeças para a gente que passa.

Dir-se-ia que a característica que os define e une mais enquanto casal é a elasticidade, síncrona e por vezes quase frenética, que exibem do torso para cima, mas há quem defenda que é apenas a curiosidade. A curiosidade moldando o corpo. Os seus descendentes, se eles legarem também o gene indiscreto per saecula, serão como pequenas girafas balanceando na ponta de um longo pescoço uma pequena cabeça de olhos protuberantes que não perdem pitada da vida na savana.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Olh’ós idiotas fresquinhos!



Considerações sobre o meu nariz

Observa os resultados da TAC e volta a espreitar-me pelas narinas. Pondera. Consulta o interior das suas próprias pálpebras, com dois sapientes dedos na têmpora. Tossica e conclui que é conveniente mas não é urgente. Podemos reavaliar daqui a um ano. Por outro lado, se eu preferir, podemos marcar já. A operação. Sinusite. Porque se pode aproveitar e fazer a rinoplastia. Estética. Se estiver interessado, claro.

Talvez se referisse à questão do tamanho, que os subdotados sempre fingem menosprezar.