sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O fim da fé

Costumava acreditar no capitalismo e na automatização e informatização dos sistemas de produção. O capitalismo assegurava o crescimento geral e estimulava o desenvolvimento da democracia. A automatização libertava o homem para o ócio.
Entretanto perdi a fé.
Não me confundam: a automatização e a informatização são em si excelentes, mas não me parecesse nada evidente que hoje estejam ao serviço da humanidade. O capitalismo continua interessado em garantir a máxima produção com o menor custo, mas já não há ninguém (com poder) interessado em garantir emprego para os humanos. E, paradoxalmente, a aspiração ao ócio passou a ser uma vergonha, um pecado.
Já não temos como acreditar que os processos e os mecanismos do capitalismo e da investigação tecnológica garantem a renovação dos empregos. O crescimento global permanente é uma impossibilidade e a inovação tecnológica não está a assegurar suficientes novos empregos. O rácio entre chips e humanos é-nos simplesmente desfavorável.
Não havendo epidemias e cataclismos que dizimem suficiente população, o mínimo bem-estar geral só pode ser assegurado por uma diferente redistribuição da riqueza. Mas também isso é algo que o capitalismo não parece nada interessado em providenciar. O capitalismo, tal como praticado nos dias que correm, é uma bela ideia que nos condena.

À falta de outra inspiração, hoje no supermercado evito as caixas automáticas; procuro um funcionário de carne e osso, mesmo que isso signifique estar alguns minutos numa fila.
É uma espécie de luta. Uma luta que perderei, claro: no final, os custos da mão-de-obra extra serão acrescentados às minhas despesas e não deduzidos aos dividendos dos accionistas.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Do estado das artes

«(…) durante 30 anos de absoluta liberdade não apareceram “actividades culturais” de qualidade e consequência: em 2012 continua a não haver teatro, dança, ballet e tudo o resto.» Vasco Pulido Valente, in Público de 23/12/2012

No mesmo artigo em que reconhece que a cultura sempre viveu financeiramente mal neste país, Vasco Pulido Valente é capaz de cometer a frase tremendista acima e de afirmar que os produtores (culturais) «mais do que merecem» a ausência de público. Público que, aliás, tem um manifesto «desinteresse ou repugnância» pela «presença ou só o cheiro da Cultura».
Ora, é curioso que o anacoreta Valente, que reconhece a atávica alergia tuga à cultura e o subfinanciamento da dita, não hesite, como sempre faz, em culpar os produtores culturais pelo (suposto) fracasso das artes em Portugal.
Se não soubéssemos que a especialidade pulidiana são os raciocínios mancos servidos com prosa gourmet, talvez estranhássemos. Ou se não conhecêssemos a necessidade patológica que o arquétipo do velho rezingão tem de considerar Portugal um esgoto.

Curiosamente, nem estou de acordo com a premissa de que a cultura tem sido subfinanciada. Ou por outra: nos últimos dez anos houve orçamentos simpáticos para a cultura, o que acontece é que, como aliás VPV também refere, em Portugal a cultura é um chapéu de abas muito amplas. Tão amplas que tem sido possível acolher na sua sombra com uma regularidade e um cachet impressionantes o cançonetista Tony Carreira e uma miríade de epifenómenos.

Se não há público em Portugal para a cultura é porque aos portugueses têm sido servidas doses maciças de imbecilização nas TVs, nas rádios e nas escolas. Quase todo o espaço público português, incluindo a RTP e os artigos do triste Vasco, está ao serviço da estigmatização das artes. Para os media nacionais, teatro em Portugal são as comédias do sr. José Pedro Gomes. As comédias de J. P. Gomes (por vezes hilariantes) já eram quase tudo o que a maioria dos portugueses suportava e quase tudo a que a maioria dos portugueses assistia, mas a crise veio trazer uma súbita necessidade de humor ao país. Os nossos concidadãos, néscios e carentes como crianças órfãs, nunca foram encarados como seres inteligentes e interessados em alguma coisa diferente da anedota, mas agora a anedota é também caridosa e salvífica. Ainda ontem na Prova Oral da Antena 3, do sintomático Alvim, se reforçava esta crença, à sua maneira, natalícia.
Pelo seu lado, as escolas, na senda dos programas televisivos de talentos anónimos, estão mais apostadas em levar os meninos ao palco do que em sentá-los na plateia. As escolas, corpos docentes inteiros, como as TVs, seguem a ideia de que quem é capaz de gorjear uma cançoneta sem cair do palco é um portento das artes. E estão igualmente disponíveis para incensar o talento mimético e acéfalo. Na mesma medida em que, com honrosas excepções, estão indisponíveis para fazer qualquer pedagogia ou ilustração, aliás o seu mester.
(As universidades não contam para a educação nacional; são geralmente inúteis nesta equação das artes.)

E entretanto, ao contrário do que é apregoado no espaço mediático da paróquia, as artes lusas recomendam-se vivamente. (Posso sustentá-lo com uma lista, se alguém o desejar.) Concedo que seja necessário ir aos teatros e aos museus para saber disso — mas as televisões, as escolas e a opinião pública, incluindo a última página do Públicoao fim-de-semana, não sabem como se sentar calma, anónima, regular e atentamente numa plateia. É este, e não outro, o drama das artes em Portugal.

Leitura natalícia: o lado B do Natal

Ontem li este livrinho com seis deliciosos "Contos de Natal que a avó nunca te vai contar". É uma colectânea adequadamente subversiva de quatro autoras e autores catalães e um português. A editora tem o belo nome de O Lado Esquerdo e um logótipo de causar inveja. Já vou tarde para o aconselhar como leitura obrigatória destas festividades, mas 1) Natal é quando um homem quiser e 2) mesmo que não queira, para o ano também há Natal. O livro foi editado em 2010 mas o que são dois anos em dois mil de cristandade? Em Vila Real vende-se na Traga Mundos. Outros povos podem talvez encomendá-lo do Alentejo à mãe Natàlia (a editora) através do site http://oladoesquerdo.org/.



segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Impostor

Como alguém que há vários plebiscitos vota em branco, não me cabe defender a honra de quem quer que seja na política, incluindo a esquerda. A direita tem, aliás, boas razões para rebolar de riso com o caso do impostor da ONU. Quem espera um D. Sebastião, acaba por ter um, diáfano e inútil como todos os mitos e mitómanos. E a esquerda teve o seu com o sr. Artur Baptista da Silva.
Contudo, as gargalhadas da direita deviam acabar no momento em que estivesse disposta a reconhecer como também ela crê nos seus impostores. No caso, um bastante mais prejudicial ao país: o sr. Miguel Relvas.
Cedo se percebeu que Relvas era má rês, quando o vimos enredado nas suas contradições, nas suas ocultações, nas suas mentiras, na sua bazófia de chico-esperto impune. No entanto, a direita, tão desesperada para acreditar num governo mais liberal do que o costume (o que até é compreensível), foi sendo condescendente, relativizando, ignorando, fechando os olhos, contemporizando. O tipo era um desqualificado, um oportunista, um cretino, à sua maneira um impostor, mas era o impostor dela.
Hoje a direita bem pensante, Helena Matos e Vasco Pulido Valente vagamente incluídos, bastante depois de todo o português com dois neurónios e sentido de honestidade, já reconhecem que o sr. Relvas é uma voraz mancha no cadastro e um tiro no pé do Governo. (Embora nem sempre estendam o raciocínio para denunciar as más razões por que ele continua lá, as suas ligações perigosas a Passos.) Mas na verdade, tirando uma ou outra hipócrita indignação, ninguém faz muita coisa para que o homem saia. Sair Relvas é cair o Governo, como todos sabemos, e isso, um Governo de direita mais liberal, é coisa que a direita não pode perder, mesmo que tenha de continuar a aguentar, e nós com ela, os seus doutores que não o são, os seus ministros que não o são (não da república, pelo menos), os seus impostores.

A direita poder rir da estupidez da esquerda e dos jornalistas portugueses, mas infelizmente nós, os do voto em branco ou os da genitália no boletim, não vamos poder rir da estupidez da direita e do seu Governo de impostores. Não dá muita vontade de rir quando se está sem cheta no bolso a ver os negócios e a merda que fazem com o país. 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Civilização perdida

É claro que quando li Os Maias era um adolescente retardado e pensei que fosse um livro sobre uma civilização perdida...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Os Maias e o fim do Mundo

Não percebo esta coisa sobre Os Maias e o fim do mundo. Li o livro todo e não me lembro de nada sobre o assunto. (Já foi há muito tempo, é verdade.) Quem disse que era hoje? O João da Ega?

Passeio dilatório (da série "Jogging no Parque")

Ela está a passear no parque com o avô, mas a sua cabeça está noutro lado. Caminha sem convicção, absorta. Atrasa-se, o avô tem de vez em quando de a empurrar e repor no caminho com a bengala, carinhosamente, como se faz a um cabritinho distraído ou tresmalhado.
Não é muito comum virem passear os dois para o parque, mas hoje teve de ser, os pais dela precisavam de ir ao shoppingfazer uma coisa e não queriam que ela fosse. Puseram-se a falar com meias palavras, como se ela não estivesse ali, a combinarem o passeio dela com o avô, que dia tão lindo para irem ver o rio... Como se ela fosse estúpida. Como se a tomassem por parva. Como se esta não fosse a quadra que é. Como se ela não percebesse que o objectivo deles era irem sozinhos ao shopping para se encontrarem com o Pai Natal e lhe apresentarem a lista das suas prendas. O avô escusa de ter pressa, ela bem sabe que há muita gente no shopping à espera de falar com o Pai Natal. (Não percebe por que o Pai Natal nunca está no shopping quando ela vai lá.) Os pais se calhar ainda estão na fila. E depois é uma seca ter de esperar por terça-feira. Tantos dias para fazer a entrega. O Pai Natal é como a Worten, que demorou quase uma semana a entregar o computador novo. Ao menos a Pizza Hut entrega na hora, se a gente telefonar. Os pais talvez pudessem ter telefonado ao Pai Natal. Escusavam de ir desesperar para a fila e regressar a casa chateados e irritadiços, como acontece sempre que vão os dois ao shopping. Tinham vindo passear no parque com ela e o avô. Não que alguma vez o tivessem feito, mas isto até é giro. Avô, viste como a ponte abanou quando aquele senhor passou a correr? Que divertido. Vamos abaná-la outra vez? Vamos? Vamos?