quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Nos fundilhos de um negrilho

O fácies severo de Torga foi por estes dias esculpido na raiz sobrante do negrilho que ele amava. A ideia, decerto bem-intencionada como tantas no Inferno, é desajustada, caricatural, kitsch, até cruel, mas cheia de zeitgeist. Nenhuma iniciativa que procurasse laboriosa mas ingenuamente seduzir leitores para a obra do escritor teria maior atenção dos media do que este coelho sacado da cartola. Não há uma alma que vá ler uma linha de Torga à conta disto, mas os quinze minutos (segundos, na verdade, e bem efémeros) de fama televisiva, registados pelas equipas de reportagem com a mesma sagacidade jornalística com que antes se registavam os fenómenos do Entroncamento, já ninguém os rouba. A arte pode desprezar a ideia, mas o espírito da época promulgou-a.

Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.

Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Bem-aventurados os pobres de espírito

Quando pensamos que Hollywood toma o seu público por néscio, temos de nos lembrar da sofisticação das legendagens em português:

Did she knew him?
Probably biblically.

Tradução:
— Ela conheceu-o?
— Provavelmente na horizontal.

A banda sonora das vidas deles

1) Mais irritante do que uma festa de adolescentes a perturbar a noite é a música que se ouve nessa festa. Quer dizer, há toda uma multidão de compositores decentes na actualidade, mas apontem-me uma festa de teenagers com boa música e eu próprio visto alguma roupa nestas noites de ananases e vou até lá.

2) Antigamente transportar música pelas ruas era uma coisa um pouco tropical: os tugas eram muito nórdicos, há trinta anos, ou demasiado preguiçosos para andarem com um leitor de cassetes às costas. Hoje os telemóveis são leves e espaçosos e a juventude perdeu infelizmente a timidez: é comum cruzarmo-nos com grupos ou casalitos e o lastro indesejado da sua banda sonora. Não é um espectáculo agradável de ouvir, menos pelos decibéis do que pelo que a música nos diz do gosto daquelas vidas.

3) Nos anos oitenta e noventa invejávamos por vezes, mas negávamo-lo sempre, a descontracção (chamávamos-lhe só exibicionismo) com que a primeira geração de portugueses nascidos na França circulava nas ruas de Agosto a ouvir música foleira nos seus auto-rádios. Éramos um país de tribos estético-musicais e se alguma coisa unia as tribos (dos góticos aos betos) não eram os romanos (não foi assim há tanto tempo) mas o desprezo pela banda sonora dos emigrantes. Talvez houvesse um certo chauvinismo nisso, mas não se pode dizer que havia mau gosto.
Entretanto, talvez imbuídas de um sentido de missão ou justiça histórica, as cassetes daqueles auto-rádios parisienses tomaram conta da pátria, transmudadas no hip hop da baixa da banheira e no funk da rocinha que se ouve nos carros e nos smartphones da tribo única em que aparentemente o Portugal sub-20 de hoje se transformou, a julgar pelo que chega à minha varanda.

4) Pior experiência estética do que ver adolescentes passear a sua música pelas ruas é imaginá-los daqui a trinta anos a ouvi-la emocionados, saudosistas, em noites solitárias e nostálgicas. Grossy!

5) Diz-se que todas as épocas tendem a desprezar o gosto da anterior e sobretudo o da seguinte e que isso faz parte de um «conflito de gerações». Mas nós amávamos os hippies e não quisemos mal aos Linkin Park. De resto, não há um conflito quando só uma das partes agride os ouvidos da outra.

(Imaginem a cacofonia se houvesse de facto um conflito, com todas as gerações a dispensarem a civilidade dos phones ou o Youtube em recato e a martelarem furiosamente a céu aberto a banda sonora das suas vidas. O Inferno é a audição ao vivo e simultânea da lista da Rolling Stone com os 500 melhores álbuns de todos os tempos. E o último círculo desse Inferno é aquele em que a lista da Rolling Stone inclui, por condescendência, a playlist dos putos meus vizinhos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A marmota no feitiço do tempo

O meu Proust vai lento (deve ser para ai a terceira vez que escrevo isto e cada vez me sabe melhor fazê-lo) e se isso me traz um pouquinho de frustração quando reparo nos livros que tenho em espera não é, ainda assim, coisa que me apoquente.
Este Verão não ficará famoso por belas viagens, mergulhos inesperados ou de aspiração infantil, copos com vista e sombra, bolas acidentalmente roubadas no green do buraco 17. Mas está a deixar a sua marca na memória, por cortesia de uma rotina que só uma época anormal, sem pressa de projectos ou destinos, permite cumprir-se todos os dias com dedicação e método.
Não são muitas as páginas que viro do meu Proust a cada jornada, é verdade, e a maioria acontece ao pequeno-almoço (as noites de folga têm sido, como sabem, de rendição perante um fascínio desportivo insuspeitado, outra anomalia deste ano incomum, como o planeta Melancholia). E é justamente nessa pequena quantidade de páginas lidas por cada rotação terrestre, nesse lento avançar para o volume seguinte, que se vai construindo uma ideia ou um significado, talvez uma esperança: deixar durar a leitura para prolongar o prazer ou para deter o tempo, para o reorganizar numa sucessão que não avança, antes repete cada dia com o mesmo interesse aparentemente diminuto do anterior. Como no filme O Feitiço do Tempo, mas sem necessidade de desenvolvimentos ou correcções.
Uma rotina para não perder o tempo.
Levantar, constatar que é Verão e o sol brilha e as sombras das árvores, onde as há, são a dádiva que equilibra tudo; desempenhar as tarefas matinais como quem progride na floresta tropical, afastando com indiferença um pouco impaciente a vegetação à esquerda e à direita, ou como quem avança em slalom entre a multidão, apartando caminho com os ombros, para chegar à clareira ou à praia ou à pequena praça esquecidas, perdidas, ignoradas, desertas, solitárias e maravilhosas. Livro sobre a mesa, em frente aos utensílios e aos víveres, tudo disposto com rigor maníaco obsessivo-compulsivo. E então, o tempo pára durante vinte minutos…

Depois é descer em estado de graça, com ar de heroinómano satisfeito, aproveitando o privilégio de ir a pé para o emprego, resistindo beatificado às ruas inclementes de sol e humanidade que antecedem a chegada ao parque, onde, sob um céu sabiamente entretecido de ramos e folhas, tem lugar uma segunda pausa de contemplação e de puro prazer de estar vivo.
No dia seguinte tudo se repete e se há alguma preocupação é a de não alterar os gestos, os movimentos, os passos, procurar que nada inflicta o rumo dos acontecimentos, na esperança vã mas feliz de que o Verão não acabe, o sol perdure (para que haja o prazer de chegar à sombra), o Proust tenha escrito setenta volumes em vez de sete, trinta dos quais dedicados às viagenzinhas de comboio de ida e volta entre Balbec e a Raspelière, passando por Doncières.
A felicidade é menos ser um Bill Murray paulatinamente apaixonado do que a marmota que repete cada dia com ambição modesta contudo sapiente e hiberna nos meses que não são Verão.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Ironia

Na minha vida de plumitivo, quando possuía carteira de jornalista, hesitava involuntariamente entre dois estilos: o editorialista e o ironista. Ambas as formas derivavam da indignação, mas enquanto a primeira me expunha como ser moral e senciente a segunda desvendava as escadas que conduzem ao Olimpo da fleuma (e que nunca consegui verdadeiramente subir até ao fim).

Se me tornei um admirador da ironia não foi porque via nela utilidade directa para o mundo, mas porque adivinhei benefícios para o praticante. Não podendo espadeirar a comarca como ela precisa, mais vale rirmo-nos dela salvaguardando distâncias profilácticas.

Convém todavia lembrar que a ironia anda de mãos dadas com a liberdade e a democracia. Só quando não nos levamos suficientemente a sério e sentimos um necessário desprezo pelos que o fazem estamos capazes de resistir à bestialidade.

A Inglaterra não resistiu ao nazismo por ser uma ilha, mas pela sua capacidade de escárnio. Que nas décadas seguintes cultivou, como antes, na literatura, na política e na música, até optar, em degradée, pelo género menor da caricatura, com Cameron, May e Johnson.

Em Portugal conheço dois focos historicamente activos de ironia: o Rui Reininho dos GNR (Q.E.D.) e Vilarelho de Jales, onde pela mão dos irmãos Chaves, eles próprios capazes de fina ironia, conheci uma tribo cujo lugar de pontífice era disputado por Mó, irmão de Salu. Se a imbecilidade nacional continuar a dar crédito ao rapaz do Chega, é ali que me encontram, naquela aldeia mais britânica do que gaulesa, a bebericar copinhos de poção irónica e a entronizar Reininho como monarca de direito para liderar a reconquista.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Marvel

Enquanto escrevia «Bruce Banner» no post anterior fui invadido por memórias e sensações que abalaram terramotamente o prédio inteiro. Só recuperei quando os vizinhos de baixo, octogenários que não via desde Março, me bateram à porta em camisa de noite e gorro com pompom a recomendar que descrevesse o fenómeno em sete volumes mas que entretanto me abrigasse debaixo de uma mesa ou de uma padieira, até cessarem as réplicas.
Estou, portanto, aqui debaixo da secretária de mogno que herdei do morgado de quem sou descendente bastardo, a lembrar, não em sete volumes, mas em sete linhas ou menos, o tempo em que a minha vida era excitada periodicamente pelas revistas da Marvel a que conseguia deitar a mão.
Conheci basto mundo depois dessa era, deixando uma pegada ecológica que não precisa de nenhum Sherlock Holmes para dela inferir incriminações. Mas, e suponho que isto seja proustiano, não houve destino ou ocasião que me devolvessem a expectativa e a felicidade iminente que ressumavam daquelas páginas — mesmo quando nelas o nosso mundo explodia.

Cólera

Venho de uma linhagem de coléricos. Pessoas boas, capazes, honestas e humildes, mas coléricas. Não sou, julgo, o praticante vivo mais destacado da estirpe, mas não me livrei da maldição, que, no meu caso, afecta por vezes mais o perpetrador do que o alvo. É que para se ser um colérico feliz tem de se reunir pelo menos uma de duas condições: a inconsciência dos brutos ou o cinismo dos poderosos. Por decisão do destino livrei-me da primeira e a segunda nunca esteve verdadeiramente no meu radar. Por isso, sofro de tremendos remorsos sempre que expludo em fúria, e nas últimas décadas evitei expor-me a ela.
Todavia, não entrei numa ordem cisterciense com voto de silêncio e, como Bruce Banner, não posso responder sempre pelos meus actos.