terça-feira, 5 de novembro de 2019

Dia dos Fiéis Defuntos (com atraso)

«O que pensas dos cemitérios?»
«...»
«Bem, tanto faz o que pensas. Não há muito para pensar, não é? Pacientes centrais de reciclagem, se quisermos ser espirituosos. Depósitos de ossos com entrada interdita a cães… Na verdade, são uma quantidade infindável de talhões cobertos com mármores e granitos em feroz competição pela honra de serem o monumento mais kitsch da cristandade. (Se ao menos o conseguissem…) Há tempos fui visitar um. Não um qualquer: aquele onde estão os meus antepassados. Não ia ali desde pequeno e foi um choque ver o que a família fez daquilo. Não sou uma pessoa simples, não me interessam a modéstia e a humildade, a singeleza. Não sou dos que apreciam aqueles cemitérios bucólicos ingleses ou irlandeses, pradozinhos sem mais do que lápides ou cruzes e erva. Mas não contava que se pudesse profanar a memória desta forma. Ia a contar com a nossa velha cruz de pedra coberta de musgo, com os seus relevos medievais de cordas entrançadas e a laje venerável que sempre cobriu as campas paralelas, com um clássico epitáfio lavrado em latim, encaixado numa moldura elegante em alto-relevo. Era assim o nosso jazigo, tanto quanto o lembrava; nada que pudéssemos evocar com ênfase em ocasiões sociais, se havia que falar de estética, mas ainda assim um túmulo com uma nobreza antiga, respeitável, antes de mais por vir da bruma dos tempos. Se havia que intervir naquilo, eu deveria ter sido consultado. Quase vomitei por cima dos meus avós quando vi a que ponto desceu o gosto da família. Como se eu tivesse nascido no seio de uma parentela de emigrantes ou empreiteiros. No novo jazigo, agora com ar de templo, não faltavam coluninhas dóricas e capiteis, pórticos, o barroco e o gótico de mãos dadas, mas tudo grosseiro, sem fineza (embora em materiais polidos), sem verdadeira cultura arquitectónica ou iconográfica, como se o trabalho tivesse sido entregue a um aprendiz sem talento nem estudos, incapaz de desenhar uma linha recta, mas igualmente inábil com as volutas, ignorante quanto à estética. Um escândalo em forma de túmulo de família. Não um escândalo — se fosse um escândalo sentir-me-ia redimido, gosto de escândalos —: um aborto. Uma monstruosidade onde supostamente eu estava destinado a descansar para sempre. Nem morto! Tornei-me ali mesmo partidário da cremação. Venha o fogo purificador que me impeça de me tornar numa espécie de ex-voto para peregrinações novo-ricas. 

«Mas não era disto que queria falar. Quando decidi visitar aquele local ia em busca de algo que imaginava poder obter de um cemitério: um momento de paz, serenidade, fé, resignação. (Sim, estava transformado num idiota naqueles dias.) Depois de recuperar do choque estético, foquei a minha atenção nos retratos de família, sabes, aquelas fotografias em tons de sépia que se metem em molduras ovais. Havia uns poucos daqueles, contudo eu olhava-os como se olhasse para desconhecidos. Lembrava-me de um ou outro pendurado lá por casa, mas diziam-me tanto como o retrato do Dom Manuel ou do Dom Carlos, que também por lá andavam. Nem sequer me reconhecia naqueles traços físicos, não mais do que nos retratos dos túmulos ao lado. Aliás, tanto quanto poderia asseverar, a existirem ali laços familiares visíveis, eles uniam era os defuntos uns aos outros. Os mesmos rostos — duros, ossudos, angulosos, de maxilares fortes e sobrancelhas cerradas — espalhavam-se para um lado e outro daquela ala.

«Na minha família não se falava muito do passado, não mais do que para evocar a antiguidade dos genes, e para tal bastava um par de frases pomposas. Por isso eu perguntava-me ao ver as fotos no túmulo que mulher era aquela cujo rosto enrugado se encerrava anacronicamente dentro de um penteado redondo dos anos cinquenta? E o homem na moldura ao seu lado? O que distinguia aquele bigode farto de tantos outros que povoavam o cemitério? Não havia respostas para mim. Tinha ido porque me sentia um elefante com ordens para depositar o marfim no cemitério da espécie, mas os defuntos da família não me reconfortavam, não me sentia inclinado a tombar ali — e não era apenas por aquela ser uma última morada horrenda. Na verdade, e este é o pormenor mais inesperado da visita, não senti nem por um minuto a presença da morte naquele vasto campo de bijutaria. A terra, se eu tivesse sido capaz de a ver debaixo de toda a feia ornamentação, não me requisitava. Não me sentia na iminência de descer à cova. E era estranho, porque eu andava a ver a morte por todo o lado, a senti-la chegar.

«Era… É nos vivos que eu sinto a morte, o engano da vida. Frustrada a experiência da visita ao sepulcro familiar, pus-me a caminhar por entre os túmulos, a espreitar os nomes e os rostos, a ler epitáfios. O Inverno tinha entrado, o dia estava cinzento, havia fumo de chaminés à volta dos muros e ao longe ladravam cães, como se aquele fosse um cemitério de aldeia ou a cidade regressasse ao século dezanove. Ardiam velas em recipientes vermelhos por todo o lado, fazendo da paisagem uma massa viva, palpitante. Vários jazigos estavam submersos em ramos de flores, coloridas, ainda viçosas. Tinham passado por mim alguns grupos mas agora apenas havia outro homem, idoso. Eu vira-o fitar durante muito tempo uma das sepulturas, provavelmente rezando. Depois, deu meia volta e parecia que tomava resolutamente o caminho da saída. Mas algures a meio de uma das áleas mudou de ideias e enveredou por outro sector da necrópole, detendo-se aqui e acolá com ar pesaroso. Talvez o homem fosse demasiado velho, o último sobrevivente de uma geração cujos membros tinham sucumbido. (Ele passeava pelo cemitério como numa rua a cumprimentar os vizinhos; os seus vizinhos agora viviam ali.) Foi através dele que senti a morte, mas não porque o seu aspecto fosse débil, de alguém que devesse uns anos à cova, como se costuma dizer. Não porque os seus pensamentos se ocupassem apenas de gente morta, como de certeza ocupavam. Mas porque ele passou por mim sem me ver. Cruzámo-nos já no exterior do cemitério, no parque de estacionamento, quase a tocar os ombros, e ele apenas aconchegou as golas do casaco ao pescoço, como se acometido de súbita corrente de ar. Eu é que era o fantasma. Centenas de sepulturas, milhares de cadáveres ali ao lado e eu é que lhe provoquei calafrios. Era em mim que a morte estava, não no solo, mesmo que se tratasse do solo especializado em morte de um cemitério.»

[Excerto de Aranda, 2011]

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

As artes do palco na era dos telemóveis

Um interessante artigo do The New York Times (embora com um título que não abrange toda a sua temática, «Filming the Show: Pardon the Intrusion? Or Punish It?») aborda o debate que se instalou entre críticos e contemporizadores do uso de telemóvel em recintos de espectáculos. O tema já não é só motivo de conversa entre espectadores ou artistas após uma má experiência: cresceu para entrar em livros como The Reasonable Audience, uma obra que trata dos debates contemporâneos sobre etiqueta no teatro.

Entre exemplos de artistas que tiram os aparelhos a espectadores desobedientes ou interrompem as suas performances em retaliação contra os que filmam e consultam telemóveis e referência a críticas a uma tradição de etiqueta obsoleta — mas «recente», lembram-nos, já que no tempo de Shakespeare as audiências eram descontraidamente interventivas e ruidosas —, o artigo cita uma profecia talvez perturbadora mas nem por isso menos plausível: «as pessoas que se entregam totalmente e impõem rituais arcaicos e anacrónicos que requerem à partida um enorme capital cultural serão completamente irrelevantes daqui a quinze anos.»
O futuro será então dos ignorantes e buliçosos. Já desconfiávamos.

As razões por que os telemóveis podem ser tidos como intrusivos ou desadequados em recintos de espectáculos são diversas e merecem também discussões diferentes. A recolha indevida de imagens e som é um assunto, eventualmente de foro legal, sobretudo entre artistas e público transgressor de direitos protegidos. Já os braços adejantes, a luz dos ecrãs e os sons que os aparelhinhos emitam intrometem-se e em muitos casos perturbam a atmosfera da performance, quebram a concentração ou o encanto, tanto dos artistas quanto dos espectadores nas imediações.

O primeiro problema, o dos direitos de som e imagem, se se entender grave o suficiente, pode ter uma solução legislativa e tecnológica, havendo vontade política e ambiente social favorável: os recintos estarem legal e tecnicamente habilitados a impedir o funcionamento de telemóveis, mesmo contra a vontade dos donos dos aparelhos.

O segundo problema — aquele que é verdadeiramente uma questão, não de etiqueta, mas de comportamento, de sensibilidade estética e respeito pelo trabalho e atenção dos outros — não remete necessariamente para intervenções legislativas ou intromissões tecnológicas. A sensibilidade e o respeito não se legislam e o seu policiamento não tem resultados muito animadores. Estas coisas podem ensinar-se ou pelo menos estimular-se em escolas e famílias funcionais, mas precisam sobretudo de sociedades e media que não estejam globalmente obcecados com a standardização e a forçada descomplexificação do mundo.

Uma peça de teatro ou dança não é geralmente a mesma coisa que um concerto de rock, tanto ao nível dos decibéis provenientes do palco como ao da experiência estética que constitui. Embora possa haver peças que, legitimamente, se propõem o mesmo tipo de catarse ou celebração colectiva que um concerto de rock, muitas outras há que implicam observação minuciosa e permanente de expressões, posturas e movimentos, análise continuada dos quadros compostos na cena, audição extensiva de discursos e diálogos e elementos da sonoplastia — ou seja, implicam atenção e concentração, não apenas para entendimento da peça mas para uma plena fruição estética. Para um prazer completo.

O problema é que a sociedade, pastoreada pelas agências de comunicação e pelos media, em particular as televisões, tende a desprezar experiências estéticas que não sejam alienantes da mesma exacta maneira que as grandes manifestações de massas, como se houvesse menos possibilidade de prazer numa peça de teatro ou dança ou num concerto para gente atenta.

Por conveniência e convenção medíocres (e às vezes por algum snobismo de uma das partes), reduz-se o conceito de prazer e entretenimento a manifestações artísticas em que o elemento intelectual desempenha um papel menor, em que se pede ao espectador passividade mental, mesmo que se lhe permita ou estimule actividade física de resposta, incluindo dançar no lugar ou acenar coreograficamente telemóveis.

Esta divisão entre cultura e entretenimento, que se utiliza para de forma simplista separar o que tem interesse estético do que é mero divertimento festivo, promove equívocos, rapidamente aproveitados pelos arautos da mediocridade para apelidar de aborrecida e cinzenta toda a manifestação artística que não nos faça (ou permita) bater o pé ou não instigue à gargalhada automática, reflexiva. Daí a referência hiperbólica ao «contrato» vigente em concertos de música clássica como «ritual arcaico e anacrónico que requer à partida um enorme capital cultural» (sendo «o enorme capital cultural» basicamente dar-se a pessoa ao trabalho de ler o programa, ter aprendido a identificar nele os andamentos das peças e saber que, por definição do género que tem as suas razões, não são esperadas manifestações do público, ou seja, palmas, entre andamentos).

Talvez haja um certo snobismo no mundo da música clássica. Talvez os músicos não fizessem mal em deixar de lado o smoking. Talvez fosse mais produtivo, em salas menos especializadas, o maestro explicar no início onde serão menos perturbadoras da concentração as eventuais manifestações de louvor ou tédio do público do que franzir censoriamente as sobrancelhas ou brandir ameaçadoramente a batuta de cada vez que alguém, fora do tempo, bate palmas para aplaudir ou apenas relaxar o corpo. Talvez fosse mesmo de aceitar, gratamente, humildemente, as manifestações do público em qualquer altura da performance, sendo elas genuínas. E é sem dúvida de abolir o tradicional ramo de flores para solistas ou maestro, excepto quando oferecido por um amante que, enlevado pela prestação musical, arrisca sair do anonimato.

É a etiqueta da cultura clássica, um certo formalismo ritual e eventual rigidez, denunciados não raro com veemência exagerada, que fornecem a desculpa a certos indivíduos para se anunciarem como rebeldes contra o elitismo e o snobismo cultural e não como promotores de uma ideia limitada e medíocre de espectáculo.

Advogar uma certa modernização de guarda-roupa e postura ou apelar a alguma flexibilidade por parte de orquestras e concertistas não é, contudo, a mesma coisa que achar razoável a intromissão de telemóveis numa sinfonia — a não ser que o concerto tenha sido desenhado e amplificado para menorizar esse impacto, para ser uma outra experiência.

Seria idiota soçobrar perante o admirável mundo novo da tecnologia, que por definição e vício de classe pretende a cada upgrade soterrar o mundo como o conhecemos. Muitos dos que se excitam com a ideia de revolução tecnológica alimentam um determinado grau de ressentimento. Sentem-se excluídos do mundo anterior (por falta de oportunidades, dificilmente por responsabilidade própria) e vêem num futuro niilista, de terra queimada, a oportunidade de vingança ou de encontrar o seu lugar ao sol. Veja-se a postura de tantos informáticos em relação às humanidades.

Mas a ideia de revolução, tecnológica ou não, é também uma aspiração eterna da juventude, frequentemente consubstanciada numa rebeldia sem causa. O artigo do The New York Times também introduz este elemento no debate sobre etiqueta no mundo do espectáculo: «Tanto o teatro como a música clássica têm uma base de fãs envelhecida e desejam atrair audiências mais diversificadas e jovens e há quem sugira que insistir em restrições comportamentais é uma forma de elitismo desanimadora.» Tomar como universo único o teatro e a música clássica é já um preconceito; outro, ou pelo menos uma cedência sem luta, é considerar que têm bases de fãs envelhecidas. Em todo o caso, aceitando que assim possa ser, continua a ser um erro desistir da experiência do silêncio e da atenção apenas para atrair públicos jovens, porque isso significa em muitos casos desistir da experiência da música e do teatro em si mesma.

Uma das características do confronto geracional nos tempos que correm é a cobardia e a desistência dos adultos. Décadas de propaganda televisiva e cinematografia mainstream dirigidas a jovens ou adolescentes tornaram muitos adultos envergonhados do seu estado, como se fossem gadjets obsoletos à espera de substituição por novos modelos. E contudo a experiência humana não se restringe a uma só das fases da vida, como sabe quem cresceu, se tornou adulto ou envelheceu sem se sentir diminuído mas antes enriquecido pelo que viveu e vive. Nada da experiência humana dispensa, por inerência, o ter sido jovem, mas muito do conhecimento e fruição do mundo depende de se ter crescido e acumulado experiências e saber. Além disso, salvo nos casos em que o nosso cérebro parou na adolescência, há experiências estéticas, com o seu capital de prazer, que implicam sermos adultos e termos acumulado anos de vivências, do mesmo modo que outras há que, tendo sido prazenteiras no seu tempo, se revelam numa fase posterior da vida insatisfatórias.

É por isso fundamental a ideia de que progredir não é igual a abdicar. A tecnologia serve para facilitar tarefas, não para iludir o entendimento e simplificar a experiência do mundo, coisas inelutável e desejavelmente complexas. Por outro lado, conquistar o interesse da juventude para determinadas manifestações artísticas não passa necessariamente por as transformar de tal modo que elas deixam de ser o que são. Além disso, não é irrazoável defender a existência de propostas artísticas que sejam por natureza excluídoras de jovens ou adolescentes, excepto se estes se derem ao trabalho de crescer, precocemente ou no tempo certo, para elas.

Defender, em suma, que se pode estar em qualquer peça de peça de teatro ou dança (ou concerto para gente atenta, para usar uma definição anterior) como num concerto de rock ou numa rave não é um ataque audaz e admirável ao velho elitismo das classes cultas ou a regras arcaicas de etiqueta; não é uma defesa da democratização e da simplificação do acesso à cultura (talvez do direito a ser-se, por fatalidade, opção ou natureza, ignorante e espectador): é sobretudo uma voluntária redução do leque das experiências estéticas possíveis, uma imposição de uma outra forma de estar, massificada, protofascista, que exclui os que desejam desfrutar colectivamente de um espectáculo em silêncio, sem perturbações alheias à performance.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

LER de Verão

Saiu mais uma edição da LER e está de apetite. Assinalo três novidades (e continuo uma tradição): 1) este número das revista não inclui as páginas com os livros do trimestre; 2) os Manifestos de Francisco José Viegas foram publicados no blogue posteriormente (embora, como antes, sejam repescados do Correio da Manhã); 3) não há Manifestos de Bruno Vieira Amaral (mas isso só dá conta quem como eu tem a picuinhice de ir confirmar as iniciais que assinam os textinhos).

domingo, 13 de outubro de 2019

Conservadorismo e fanatismo

O artigo que Vasco M. Barreto (blogger autor do excelente Ouriq) escreveu para o Público é um importante exercício de pedagogia — e não principalmente pelo que desvela do lado fanático de João Miguel Tavares (e, por extensão, de tantos conservadores). A sua leitura ajuda a esclarecer bastante o debate político-ideológico sobre as alterações climáticas. Resumi-lo é um exercício inadequado; leiam-no em toda a sua extensão, por favor:
https://www.publico.pt/2019/10/10/ciencia/opiniao/joao-miguel-tavares-estado-tempo-1889147
Há no artigo, por outro lado, algumas ideias que são de utilidade não só no tema específico das alterações climáticas mas no debate em geral entre “progressistas” e “conservadores” (à falta de melhores definições). Cito duas passagens do mesmo ponto:
«(…) o fanatismo inegável de alguns ecologistas anima o jornalista a extremar também a sua posição (…), entrando voluntariamente num daqueles ciclos de retroacção positiva em que a certeza parece nascer do mero antagonismo e vai ficando cada vez mais desligada da evidência e da sensatez.»
«Por mera aversão epidérmica aos progressistas e à “extrema-esquerda”, os conservadores abandonaram a causa ecologista que já foi deles e deveria continuar a ser de quem estima o princípio da precaução…»
Quando comecei a ler jornais e a ter uma ideia vaga das várias tendências políticas e de pensamento na sociedade contemporânea, o conservadorismo tinha para mim um certo apelo. Havia nalguns dos seus representantes uma elegância, um bom-gosto, uma erudição, uma ironia, um cepticismo, uma moderação, uma sensatez e até uma bonomia que me pareciam louváveis. Mesmo que a parte mais activa de mim estivesse com os revolucionários, com os que pretendiam mudar coisas, achava útil aquela reserva de precaução. Décadas depois, os conservadores tornaram-se frequentemente cínicos, extremistas ou fanáticos, tomados de uma vertigem niilista tão perturbante e “imoral” quanto a de uma certa ideia popularizada de anarquia terrorista.

Parte desta radicalização dos conservadores vem de um “messianismo” importado dos Estados Unidos que lhes concede uma impressão de pureza e superioridade próprias, em contraste com a vileza alheia, e um arrogante sentido de missão que anulam a dúvida metódica e impulsionam o gesto civilizador além-mar e corrector entre muros. Outra parte vem do mero antagonismo militante e exacerbado, que transformou a ideia de prudência em oposição activa e depois em intransigência.

A este tipo de conservadores deixou de interessar o diálogo ou o debate com forças tendencionalmente progressistas e para o seu lugar eles trouxeram uma guerra de trincheiras em que o inimigo são as franjas extremistas do lado contrário, tornadas centrais por sinédoque.

O problema é que este sector da direita tornou-se preponderante no debate público. Já não há proposta de mudança que não seja ridicularizada ou diabolizada através do método que consiste em forçar a inclusão dessa proposta no contexto das ideias mais extremistas ou por vezes tontas de movimentos radicais conotados com a esquerda. Tudo o que é progressista é assim parte de um plano para desestruturar e destruir a sociedade ou é simplesmente uma excentricidade perigosa de movimentos patetas.

Não vale a pena, neste quadro, discutir nada: pequenas coisas importantes ou fatalidades, machismo homicida e patriarcado cultural ou boçalidade gigolô, plásticos ou beatas, crescimento económico ou sobrepopulação, Trump ou Bolsonaro. Certos conservadores superiormente educados não se distinguem aqui do reaccionário atávico de rua e, quando dados ao humor, têm no cliché a mesma bengala do stand up comedian com vocação para a anedota, embora tenham um melhor domínio da língua portuguesa.

A “aversão epidérmica” que refere Vasco M. Barreto parece ocupar agora um lugar central no “pensamento” conservador. Não se trata de “seguir uma intuição”, ferramenta que não envilece o comportamento humano, mas antes de deixar que preconceitos, rancores e ódios pessoais definam o tratamento intelectual que se dará a um tema. A aversão epidérmica contamina a análise e subverte a hierarquia dos problemas, comprometendo a clarividência e a integridade daquele que se deixa dominar por ela. Foi assim que a eleição de Bolsonaro passou como um facto menor perante a corrupção do PT. É assim que Trump não enoja gente que, apesar disso, se considera respeitável.

Na trincheira conservadora, onde os combatentes andam malnutridos ou intoxicados, as leis da física e da moral já não se aplicam. Para mal do mundo.

sábado, 12 de outubro de 2019

A sensação que por vezes me acomete de que pertenço já a outro mundo é ratificada quando de tempos em tempos consulto as estatísticas do blogue e descubro que os acessos ali registados são quase todos a partir de blogues moribundos ou mortos, inactivos há anos. Como se os fantasmas de outros blogues viessem ao velório do meu.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Livros que brilham como se tivessem luz própria*


Já contei algures que li a novela Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, na noite que sucedeu uma exaustiva e fatigante limpeza do apartamento onde então vivia. Estávamos na Primavera, talvez véspera da Páscoa. Os bons católicos da minha terra recordarão que a casa se limpa profundamente na Páscoa; eu não esperava e menos desejava a visita de um padre, mas não estava decerto imune à sugestão de renovação que a Primavera traz.

À noite estendi-me nos lençóis lavados, a cheirar a fresco (ou ao sucedâneo de frescura deixado pelo detergente da máquina), agradavelmente cansado, satisfeito, com uma vaga sensação de vitória, e aquele livrinho pareceu-me brilhar como a superfície dos raros móveis onde aplicara o Pronto ou dos mosaicos onde, talvez desajustadamente, vertera e esfregara o Cif. O dia tinha sido de sol e, se isso inicialmente me enevoara o espírito, quando, auto-enclausurado, me obriguei a limpezas, deixou, por outro lado, uma encantadora memória de luminosidade geométrica no parquet descolado, de janelas trespassadas pela luz declinante, que perdurou à noite.

A leitura da novela foi quase extática, epifânica, como se o próprio Espírito Santo tivesse resolvido, com jovialidade de cordeiro primaveril antes de pressentido o sacrifício, derramar-se nas páginas daquele exemplar da colecção «Ficção Universal» das Publicações Dom Quixote. Tudo naquele livro de capas brancas, o que dele emanava para mim, era luz, luz meridional, luz quente, e bem-estar, joie de vivre, Riviera Maya sem sargaço. Bem sei: alguém ia declaradamente morrer e as causas e os métodos da morte não eram bonitos nem radiantes. Mas havia a prosa, a narração. Dormi como um anjo e guardei essa memória de felicidade até hoje.

Bruno Vieira Amaral, logo na terceira página de Hoje Estarás Comigo no Paraíso, evoca e cita Crónica de Uma Morte Anunciada. Se o não fizesse ele, qualquer crítico do livro teria de o fazer. Não tanto pelos pontos de contacto circunstanciais que possam existir entre as histórias narradas pelos dois livros, mas pela luz que ambos reflectem. Ou emanam. O romance de BVA é, para mim, meridional como alguma literatura da América Latina. As páginas do livro iluminam-se da mesma maneira, até quando tratam, de igual modo, de misérias e tristezas humanas. Não falo exactamente de brilhantismo da prosa no sentido de mestria, mas de uma luminosidade óptica, palpável, de uma luz de trópicos que nos entre pelos olhos com as formas negras dos caracteres («da famíla Caslon, inspirados na tradição barroca holandesa do séc. XVII») que compõem as palavras impressas. A Baixa da Banheira de Bruno Vieira Amaral, já o tinha pensado na parte que li de As Primeiras Coisas (hei-de terminá-lo), podia bem localizar-se em Medelín ou lá onde a luz é muita e benfazeja, apesar dos esfaqueamentos.

O título Hoje Estarás Comigo no Paraíso não é, portanto, só bíblico — dirige-se directamente ao leitor com uma promessa que este pode bem dar por cumprida durante as horas de leitura (o Paraíso é eterno enquanto dura). Mesmo que não seja Primavera nem tenha havido barrela à tarde.


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* Abaixo de 451 Fahrenheit.

sábado, 14 de setembro de 2019

A Mulher do Meio

O novo livro de Ivone Mendes da Silva, A Mulher do Meio*, teve ontem uma boa crítica no Ípsilon e isso deixa-me contente. Porque são merecidos o juízo e a divulgação. A escrita diária de Ivone, publicada nas «redes sociais», é um bálsamo de inteligência e sentido estético. Abrigamo-nos nela da hediondez quotidiana. Vão e leiam-na.


*Edição Língua Morta.