terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Peeping Tom

Já me tinha acometido a sugestão de um conto a partir de um espectáculo de Peeping Tom, mas planear férias em função da agenda da companhia belga era a primeira vez. A dança contemporânea (no caso, o termo mais apropriado é tanztheater, até se quisermos evocar o ascendente de Pina Bausch) parece-me uma óptima bússola para os dias. Do mesmo modo que alguns guiam os seus passos pelos signos, pelo tarot ou pelo calendário futebolístico, se eu tivesse o tempo e o dinheiro orientaria hoje o meu quotidiano totalmente em função de certas tournées. Seria com imenso prazer e sem medo do ridículo uma espécie de groupie das grandes (e boas) companhias.

Não teria uma vida aborrecida ou pacata. Apesar da crise e da bruteza de uma boa parte dos dirigentes europeus, a oferta é muita. Um tipo (com dinheiro e tempo) ainda pode passar os seus dias de malas aviadas entre aeroportos, estações e hotéis, numa digressão que tem a vantagem de ser simultaneamente um roteiro por cidades interessantes. Só na pequena Bélgica, e para a produção mais recente da companhia, as opções eram Bruxelas, Antuérpia, Genk, Namur, Bruges ou Lovaina.

Nem sempre parece fácil transmitir ou explicar este interesse. Dir-se-ia que o gosto do cidadão médio europeu está demasiado cercado pela estreiteza medíocre dos media para se se sentir autorizado a curiosidades ou extravagâncias.

Naquela noite em Bruxelas, as nossas guias da cidade acompanhavam-nos em parte talvez por delicadeza de anfitrião — não tinham o hábito de ir ao KVS, e Peeping Tom era novidade. Mas a suposta sensatez de as prevenirmos contra alguma estranheza que pudessem vir a presenciar era na verdade uma cedência ao preconceito e à condescendência: não houve distinção entre o nosso entusiasmo e o entusiasmo delas no final da peça simultaneamente perturbadora, terna e cómica que é “Vader”. Devíamos saber: não é necessário ter visto outras produções da companhia (ou sequer ser iniciado no género) para a apreciar. Basta ter a inteligência e a sensibilidade activadas.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Selfie ou as faculdades paliativas da nostalgia

Descem a vereda do parque em passo lento de sábado à tarde. Vistos de costas, não se percebe se são namorados, se irmãos ou mãe e filho (ela parece mais velha), mas essa dúvida é ainda mais espúria quando os vemos posar para a fotografia: o que importa se o que encenam para a câmara é amor romântico ou ternura familiar? No simulacro dos sentimentos é indiferente o tipo de parentesco.
Encostam muito a cara, o braço dele sobre os ombros dela, ela como tenaz a cingir-lhe os rins. Podem estar só a espremer-se para caberem no enquadramento (acontece até a estranhos em bodas, ombrear promiscuamente a mando do fotógrafo), e a expressão feliz que de súbito lhes ilumina o rosto pode ser a apenas a resposta instintiva, culturalmente determinada, a um imaginado «olh’ó passarinho». Regressarem com igual rapidez às caras sisudas anteriores parece corroborar esta ideia de que presenciamos uma farsa inocente, ritual.

Mas nada impede a especulação literária. A vida não impede geralmente a especulação literária. Fotografias sorridentes são instrumento que as pessoas usam para acreditarem, a coberto dos anos ou da distância, que em certo dia ou local foram felizes. A foto como alibi para a auto-estima ou o optimismo. Talvez alguém naquele casal conhecesse já as faculdades paliativas da nostalgia.

(Folhear um álbum é seguir uma prescrição antiga de alienação e tirar fotografias com este móbil poderia ser judicialmente censurado como plantar cannabis. Mesmo que apenas para consumo próprio.)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Mademoiselle Marcelle La Pompe, aliás, Renée Dunan

A realidade pode ser ainda mais truculenta e divertida do que já achávamos. Alertam-me que o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle La Pompe», que me serviu há dias para prosa a armar, é na verdade obra de Renée Dunan, escritora, crítica, poeta, anarquista, dadaísta e feminista francesa que provavelmente emparelhou com alguma da clientela surrealista do café La Fleur en Papier Doré. Marcelle La Pompe era apenas um dos seus vários pseudónimos.
(Devia saber que os meus dois vagos anos lectivos de francês não me autorizavam hermenêutica deste calibre.)

Alguns links úteis:
http://lenaweb.voila.net/Dunan/Reneee_Dunan01.jpg

domingo, 14 de dezembro de 2014

E-musas

Uma vez escrevi em directo no blogue, durante semanas, um conto longo que em boa parte se inspirava na persona de PJ Harvey de alguns vídeos e tinha como banda sonora obsessiva um outro vídeo com uma música igualmente obsessiva de Radiohead — “Street Spirit (Fade Out)”. Lembrei-me disto enquanto imaginava a vida de escritor na Antiguidade Clássica: uma actividade dura, sem o YouTube e sem essa invenção fundamental que é o loop.
A estatuária grega, falando de musas, tinha a vantagem (também táctil) dos volumes, uma tridimensionalidade que o YouTube ainda não tem, mas faltava-lhe o movimento, e seria necessária uma sucessão de estátuas para cobrir toda a expressividade do rosto de PJ: a inocência e a perversidade, a candura e a dureza, a melancolia e a violência. Retratá-la seria trabalho para toda uma guilda medieval. Já manter uma trupe dias a fio a tocar a mesma música sairia caro em broa e vinho, algo que a electrónica nos poupa.
O progresso não é só máquinas a substituir caixas de supermercado e portageiros nas auto-estradas. É dar-nos acesso às musas de uma forma que antes só era possível a gente com dinheiro ou imaginação.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O primeiro murro e os seguintes

«Não visitei o quarto senão quando o Hotel era uma ruína sem ponta de nobreza, disse eu a Leonardo. Não que eu concordasse que nobreza teria sido um termo adequado para caracterizar aquele edifício, pese embora o facto de alguma nobreza nacional ter em tempos ali pernoitado. Mas a decadência tem o poder de exaltar o que a antecede, disse eu, e nas madeiras apodrecidas, nas paredes esburacadas, no mobiliário despedaçado podia imaginar-se um luxo ou pelo menos uma distinção maior do que aquela que na verdade existira.
Durante muito tempo não soube que intuição me levara àquele exacto compartimento e depois descobri que a intuição nada tinha a ver com o assunto. Em 1998 eram ainda visíveis as marcas claras dos calendários na parede (ou eu imaginei que aquilo eram marcas de calendários) e o crucifixo de madeira preta permanecia, tutelar, na parede onde se encostara a cabeceira da cama. Depois o Hotel do Norte foi demolido e o espaço que ele ocupava no chão entretanto nivelado era ridiculamente pequeno, parecia impossível que naquela reduzida clareira do Parque pudesse ter existido semelhante edifício e que por ele tivessem passado tantas épocas e tantas vidas.
Leonardo permanecia atónito depois da nossa aventura no clube de jazz. Tínhamo-nos escapado sem qualquer problema, mas abandonáramos o corpo inanimado de Octávio e eu sabia que isso iria pesar na consciência dele, mesmo que nos tivéssemos certificado, à distância, como malfeitores compassivos ou arrependidos, de que os amigos dele o tinham enfiado numa ambulância não muito depois da minha agressão.
Ter imaginado que estes acontecimentos me iriam deixar sem interlocutor (que importância tinha a minha história perante a enormidade daquilo que Leonardo e eu fizéramos?, era isto que Leonardo estaria a pensar naquele momento) fez-me desejar acelerar o relato, saltar etapas, chegar ao seu término, mas logo percebi que era uma coisa estúpida de fazer. Aquilo não podia ser varrido para debaixo do tapete, ignorado como mais um incidente numa noite excessiva de copos, nem sequer sepultado debaixo da torrente de revelações que eu reservara para Leonardo naqueles últimos dias, dez anos depois da minha primeira partida. Ele olhava para mim e — eu percebia — continuava a ver-me erguer o postalete e a fazê-lo descer sobre a cabeça de Octávio, felizmente sem usar a circunferência aguçada da base. Se fosse um dos seus próprios pacientes, Leonardo ter-se-ia aconselhado a afastar-se de mim, pelo menos enquanto não conseguisse ultrapassar o trauma, resolver o impasse existencial, moral, em que se afundara. Mas eu não era apenas parte do problema, ou nem sequer era o problema. Leonardo precisava de mim para se ver a si próprio a perder o juízo. Eu era o espelho, era mais fácil ver-se reflectido em mim de navalha na mão prestes a consumar uma loucura. Se tivesse de pensar sobre isto a sós — o que decerto também faria: à noite, na cama; durante a curta viagem de carro para o consultório; nos únicos momentos em que eu o deixava sozinho —, talvez não tivesse coragem de o fazer, pelo menos não profundamente, não tão cedo, não sem se socorrer de uma boa dose de whisky. A minha presença solicitava o que de racional e profissional havia nele, mesmo que desta vez a vocação tivesse de ser posta ao serviço da sua auto-análise.
Eu queria ajudá-lo forçando a normalidade. Estava de regresso à cidade para lhe contar a minha história e era isso que iria fazer, já que nada tinha acontecido — queria eu que parecesse, queria eu que fosse verdade — que impusesse uma mudança de planos. Mas daquela noite em diante tivemos de lidar também com a presença opressora dos fantasmas de Leonardo, que disputavam aos meus o espaço sofisticado do seu gabinete, ou todos os outros sítios por onde andámos.

A primeira vez que desejei enfiar um murro na cara de alguém, disse eu a Leonardo, não estava convencido, por razões físicas e morais, de que o podia fazer. Ignorava a extensão da minha força por nunca a ter verdadeiramente posto à prova e inibia-me o excesso de doutrina católica. Temia que um murro não fosse suficiente e eu não fosse capaz de sustentar a briga ulterior, mas temia ainda mais que o Céu estivesse de facto a observar-me e fosse testemunha da minha iniquidade. Fingia então indiferença, superioridade, desprezo. Passei a fazê-lo com demasiada frequência, ignorando o quanto era acreditado naquele meu papel (embora, no íntimo, supusesse que pouco: não poderia transmitir esses sentimentos, ou a ausência de sentimentos, uma vez que o que sentia era raiva, impotência, desejo de vingança). Eu lia algures que uma pessoa podia transmitir beleza, se se sentisse bela, ou confiança, se se sentisse confiante. O carisma, recitava de cor depois de ter lido, era algo químico, como o odor que os cães pressentem quando não conseguimos conter o medo. Mas eu sentiamedo e raiva e ressentimento, como poderiam os outros ignorá-lo? Não agredia a murro todos aqueles que injustamente me incomodavam — o preto era também um medroso —, mas os meus pensamentos apresentavam um currículo de serial killer, ou pelo menos de alguém demasiado violento, incapaz de conter a cólera. Foi a consciência de que, para todos os efeitos, eu era um pecador, que me era impossível não transgredir em pensamentos e, consequentemente, impossível evitar o Inferno, que me fez entrar numa nova etapa da minha vida. A lógica infantil moldada pela catequese salvou-me, embora não da maneira que os catequistas desejariam. Convenci-me, por volta dos doze anos, de que era um pecador reincidente e que não tinha grandeza bastante para a redenção, já que não conseguia arrepender-me de cada maldade que pensava. Se havia uma paridade entre os actos e os pensamentos, por que me continha eu?
Quando a ocasião se proporcionou de novo, disse eu a um Leonardo enfraquecido mas ainda capaz de atenção, tinha-me livrado do obstáculo moral e desenvolvera uma estratégia para evitar a briga que consistia em dar o primeiro murro — e dar também todos os seguintes, numa sucessão e ritmo que imobilizasse o adversário antes de ele ter tempo de reagir e notar que era mais forte. Jogávamos futebol. Ou jogavam os outros, e eu limitava-me a sonhar que em algum momento poderia ser chamado a substituir um dos da nossa equipa (fazia figas para que alguém se aleijasse o suficiente para ter de sair do campo). Estava de pé junto à linha imaginária que delimitava a área de jogo quando um rapaz mais velho, que não jogava, se aproximou pelas costas e me puxou os calções até aos joelhos, perdido de riso e a gritar para as raparigas que assistiam envergonhadas se era verdade ou não que também a minha pila era preta.
Por segundos que me pareceram eternos, fiquei ali com os calções em baixo a sentir a maior humilhação da minha vida. Depois, baixei-me para os puxar para cima e com o mesmo movimento apanhei um pau do chão e atirei-me com ele para cima do tipo que me fizera aquilo. Não parei de lhe bater enquanto não houve sangue e quando terminei já não sentia raiva nem sentia nada. À minha volta todos estavam parados a olhar, sem decidirem o que fazer. Eu tinha sido o ofendido, era meu direito retaliar, mas na sua apatia eles pareciam buscar uma razão para se lançarem em grupo sobre mim. Abandonei no mesmo momento o jogo em que não participara e abandonei a obsessão em sentir-me injustiçado, rejeitado. Dali em diante seria verdadeiramente capaz da indiferença, do desprezo, não raro da superioridade. Passei por eles como numa despedida, a aguentar os seus olhares confusos e nervosos, vazio de sentimentos e estados de espírito.
Terminei a história sem convicção, não estava convencido de que as coisas se tinham passado assim, de que aquele tinha sido um momento inaugural ou sequer que tivesse existido. Por vezes, imaginava a minha biografia, ou alguns episódios dela, como uma ficção que eu próprio reescrevia de acordo com uma disposição posterior. Leonardo deve ter percebido esta hesitação e interpretou-a como se eu estivesse a tentar algo para o confortar, a inventar uma parábola, uma coisa que relativizasse o seu acto e lhe apontasse pistas sobre como lidar com ele e com o futuro, se acaso Octávio recuperasse com vontade de continuar a sua saga importunadora. Talvez fosse assim de facto, talvez esta história não fizesse parte da narrativa inicial que eu tinha para Leonardo e a tivesse inventado no momento, para ele e para mim, como uma forma de lhe ser útil.»

in Hotel do Norte

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Catalogue des prix d’amour

[O senhor flagrado não é Paul Nougé, apesar do ar satisfeito]

Mosquitos em Bruxelas parecia-me um contra senso, imaginando-os bichos eminentemente meridionais ou amigos de ambientes de gente pobre. Mas quando me começaram a cair no copo lembrei-me que sou pobre e meridional. Não, não foi isso. Quando passei a usar a vetusta base de copos como tampa contra os dípteros kamikazes, tomei consciência do sítio onde estava: La Fleur en Papier Doré (Het Goudblommeke in Papier para os amigos flamengos), um café que respeita o seu ilustre passado mantendo, quase sem a espanar, a decoração original. A Flor em Papel Dourado é um estaminet fundado em 1366, mas não creio que houvesse nenhum mosquito dessa colheita. Os que partilharam comigo o cabernet e mais tarde nadaram nos meus sucos gástricos deveriam ser do tempo da última remodelação do botequim, acontecida, diria, na transição de oitocentos para novecentos. Gosto de sítios assim, com verdadeira história. E se tomasse notas no meu moleskine (ou, menos romanticamente, usasse a câmara do telemóvel), poderia hoje reproduzir na íntegra, poupando o trabalho de inventar tema e coerência para um post, a piéce de résistance das antiquarias que enfeitam, emolduradas, amareladas e empoeiradas, as paredes da casa. Refiro-me ao tarifário de um prostíbulo, de 1915.
Não me parece que o nome do café derive deste dístico utilitário, mas podia: o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle Lapompe”1 é um belo documento histórico em papel dourado pelo tempo. E a flor… vocês sabem.
A informação disponível no café refere que Magritte e os surrealistas belgas passavam ali os dias, e acredito que eles tenham reparado, como eu, que chez Marcelle Lapompe2 havia descontos se o cliente não precisasse de luz (já a vela custava 15 cêntimos). Talvez, pensando bem, o tarifário tenha sido esquecido ali por um dos surrealistas, depois de o ter consultado disfarçadamente no meio de um exemplar que fingia ler de L’Amour Fou, do condiscípulo francês. Ou, quem sabe, o papelito comprometedor caiu do bolso de um Paul Nougé vindo de se ter feito “glouglouter le poireau”3, depois de “faire sucer une pastille de menthe a l’opératrice”. Tudo é possível (refiro-me à cronologia): o tarifário diz que “anula todos os precedentes”, mas pode ter vigorado nas décadas seguintes (é consultar a inflação da época).
A tabela de Mademoiselle Lapompe — que eu mesmo que tivesse tomado notas na verdade não citaria, por pudor — é simultaneamente um documento de grande objectividade e um catálogo de metáforas e eufemismos de 1915 para essa outra metáfora e esse eufemismo intemporal que é o “amor”.

Pode ser encontrado na Internet. O "Catalogue". E o amor, parece.

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1 Ok, fui pesquisar na Internet, comprovando de passagem a minha teoria de que hoje não é preciso levar máquina fotográfica para as viagens, alguém já tirou as fotografias de que precisamos.
2 Na Rue du Chant-Noir, número, adivinharam, 69.
3 Pardon my french.

domingo, 23 de novembro de 2014

A necessidade de flanar

Algumas ruas aqui em volta fazem-me por estes dias lembrar Roma, a caminho do Trastevere. Nada nas ruas sem Tibre nem classicismo desta cidade se parece a Roma, excepto as coloridas folhas de plátano coladas ao chão pela chuva. Mas é de Roma que me lembro ao contemplar o que o Outono fez às folhas. O que me teria sucedido de interessante ali, se descontarmos estar desobrigado de horários e compromissos?
O caminhar à noite pela margem esquerda do rio, indagando abstraidamente a corrente rápida e acastanhada, o cruzar a Ponte Fabricio com vaga e preguiçosa curiosidade estética e histórica não estavam balizados por nenhum prazo ou ânsia, não tinham nenhum objectivo que não fosse descobrir algures, sem urgência, uma taberna simpática com preços módicos. E percebo que é isso o que de importante me aconteceu em Roma. Isso, essa suspensão do tempo, do trabalho, da existência social mesmo que misantropa, esse interlúdio da vida quotidiana que deambular por uma cidade estrangeira pode significar.
Há um prazer, uma leveza, um sentimento de eternidade quando se vagueia por uma cidade sem pressa nem destino nem desejos nem gente conhecida. Não é talvez de Roma que me lembro, mas de flanarpor uma cidade atapetada de folhas no fim do Outono. Não é de Roma que tenho saudades (que patético seria reclamar-me saudoso de uma capital de fim-de-semana), mas daquela versão de mim que não tinha agenda.

Descubro que sou, por aspiração (e julgo que natureza íntima), uma espécie de flâneur. Um flâneur rústico, pelo menos provinciano, mas um flâneur. Fui-o quando saía de fim-de-semana da tropa e tinha de queimar horas entre estações de Lisboa ou do Porto. Fui, então, um flâneur do Cais do Sodré a Santa Apolónia, de S. Bento a Campanhã, fazendo grandes desvios pré-baudelerianos (no sentido de inconscientes de si), preferindo calcorrear horas a fio as cidades do que passar o tempo de espera em bancos frios e sujos de apeadeiro ou em cafés para cuja cerveja não tinha dinheiro. Fui um flâneur à maneira torguiana (figura que, contudo, me não desperta interesse), pisando em todas as oportunidades o saibro dos caminhos e escalando as rochas dos montes. Fui, a espaços, com certa pretensão walterbenjaminiana, digamos, um flâneur à medida das pequenas terras onde vivi ou procurando erguer-me ao tamanho de algumas das que visitava.

Mas só hoje, ao regressar a casa e aos deveres, ao olhar com nostalgia este tapete de folhas nesta terra que não é Roma, percebo mais intensamente que a felicidade talvez seja não aceitar na vida mais do que solas de sapatos e bilhetes low cost.

Algo que na verdade já devia ter intuído quando em Bruxelas me pus, não sem embaraço, — como aqueles fãs que vão a Paris visitar o túmulo de Jim Morrison — à procura dos sítios por onde andou o narrador flanante de Cidade Aberta, de Teju Cole. Não era uma emulação ou uma excentricidade constrangedora das que por vezes me assolam — era uma acusação e um apelo dirigidos a mim mesmo.