quarta-feira, 11 de junho de 2014

Honra pífia: ser citado na nova LER ao lado do arquitecto Saraiva.

Não e não

Uma coisa que é capaz de não ajudar nada este blogue: ao contrário de tantos, não vou inaugurar uma série de posts sobre o mundial.

terça-feira, 10 de junho de 2014

A menina de óculos

Saltitante como um cachorrito, acompanha os pais numa caminhada ao fim da tarde. A figura de alguém que lê um livro num banco à margem do caminho prende-lhe de súbito o olhar. Não ao ponto de a fazer perder a oportunidade de pisar ritmadamente as pedras que enterraram no percurso a fingir de pegadas de animais. Mas, cumprido o gostoso exercício, volta a observar o leitor enquanto passa por ele. Uns metros depois, não resiste a virar-se para trás e dar uma última espreitadela. Os óculos de massa apoiados no narizito parecem assegurar-lhe um perfil de leitora precoce e cúmplice que acabou de reconhecer um par. Porém, as aparências demasiadas vezes enganam: talvez seja apenas uma criança que acabou de ver uma bizarria. Ou talvez o paralelo canino seja acertado e, como todas as crias de mamíferos, está apenas a cartografar intensa e francamente o mundo, ainda desconhecedora das convenções adultas sobre o olhar.

Eu próprio transgressor, pisquei-lhe — e ela sorriu. Não digam a ninguém.

Bombos

[Para os patriotas que se entusiasmaram com o post anterior]

Observando desfiles populares noutras paragens geográficas, somos forçados a concluir com melancolia que, como povo, nem para descer alegre e ritualmente as ruas temos jeito.
As formações “musicais” mais requisitadas para arruadas nesta zona do globo são as de Zés Pereiras, ou equivalentes. O facto de serem constituídas apenas por percussionistas não seria um mal, se colmatassem a falta de instrumentos melódicos e harmónicos com virtuosismo técnico, variedade e complexidade rítmicas, originalidade de composições, brilho coreográfico, ousadia e destreza física ou elegância de trajes.
Mas não. A popularidade destas formações dá-se provavelmente porque, não necessitando de ponta de génio ou talento, são baratas — e sendo baratas são a desculpa adequada para instituições medíocres e desinteressadas de chamar talento ou génio para as suas cerimónias e festividades.
Acresce que para instituições e um povo do calibre dos nossos, o talento, mesmo que só para o fagote ou a gaita-de-foles, é um distintivo de “elite”, essa ameaça à mediania fundacional da pátria.


P.S. Além dos bombos, o único instrumento que a raça genuinamente ama (pela sua democraticidade, ou seja, por qualquer burro poder tocá-lo) é o triângulo (ou ferrinhos), esse objecto que só em mãos brasileiras ganha qualquer relevância musical.  

Aufklärung – a semântica do iluminismo alemão

Leio que o termo alemão para iluminismo é «Aufklärung». E orgulhosamente concluo que o povo germânico importou daqui as luzes. «Aufklärung» é resultado de um adido ou embaixador ter acrescentado o prefixo canino-teutónico «auf» ao étimo portuense «clarão» (dito com sotaque).

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Post scriptum

O grande Filipe Melo diz-me que o mérito de ‘Deixem o pimba em paz’* é de Bruno Nogueira, que teve a ideia e orientou os músicos na reinvenção do cancioneiro. E já que estamos numa de distribuir créditos, há que referir também Nelson Cascais, multifacetado contrabaixista, e Manuela Azevedo, capaz de ressuscitar músicas que na verdade nunca estiveram vivas e de nos emocionar esteticamente com a mais insípida ou parva das letras pimba.

* A propósito deste post.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Mau augúrio

Não sou supersticioso nem iniciado em filosofias orientais como o Feng Shui, mas sempre que posso oriento as camas onde durmo para sul. O tempo cinzento afecta-me o humor, quebra-me o ânimo, e a sul há uma expectativa de sol, de bom tempo. Já aconteceu deitar-me com os pés para a cabeceira numa cama norteada apenas porque queria acordar bem-disposto. Saber-me de cara virada ao sol, ou orientado para latitudes onde a probabilidade de sol é maior, fornece-me a réstia de conforto que estar vivo exige. Por isso os quartos onde durmo, insensivelmente projectados sem orientação solar, têm por vezes aquele ar desacertado, de coisa fora do lugar (a cama).

Talvez esta fuga à mobilação prevista exerça a sua influência sobre as minhas ideias, a minha psicologia. Mas como disse, não sou supersticioso. Mesmo que tenha ficado preventivamente maldisposto quando me disseram que amanhã iria acordar com um dia de chuva.