quinta-feira, 15 de maio de 2014

Tupperwares

Enquanto o país se distrai com o Benfica, eu ocupo-me de problemas sérios. Tenho recebido apoio alimentar de diversas proveniências e, chegada a hora de devolver os tupperwares, não sei quais pertencem a quem… As cores não ajudam. Tirando os reciclados de sobremesas, é tudo amarelo ou laranja. Vou ter de tomar medidas: de hoje em diante, só aceito solidariedade a fundo perdido ou em tupperwares etiquetados.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Pensando bem

Pensando bem, o meu problema nunca foi a permanente hesitação entre Bowie e Morrissey (para falar de uma delas). O meu problema foi optar sempre por Araújo, esse inconseguimento.

Comovente

Morrissey em concerto apertando sucessivamente as mesmas mãos (a boca de cena não é assim tão larga) mas dizendo «they’re so many». A espaços, sobem fãs ao palco, e comovente é ver os enormes seguranças caírem sobre elas como armários num terramoto e numa súbita contenção pegarem-lhes com pinças, levando-as dali com delicadeza, lembrando-se talvez que não se maltrata mulheres.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Tirania e despotismo

De que serve ter-se arquitectado dois posts e um trabalho académico se ao pôr-se o sol na varanda a sensação é a de que se perdeu um dia de vida? Pelo menos um dia de Primavera, desses raros ensolarados e amenos. Não, a literatura só é útil quando podemos dela desfrutar encostados a uma árvore ou rocha, respirando o ar puro dos montes nordestinos ou da falsa planície alentejana, ouvindo o murmúrio de um ribeiro ou o incessante restolhar de uma cascata, a conversa cíclica da beira-mar. É-se escritor de Inverno, por necessidade, ausência de sol e alternativas. Mas o que se deseja é o Verão interminável e a possibilidade de se ser apenas leitor. Tirania é ter de trabalhar seja de que forma for quando chega Maio. E despotismo é que depois de Setembro nos imponham Outubro e os meses tenebrosos.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O retrato do escritor

Já escrevi sobre isto algumas vezes: é um erro que manuais escolares, jornais, revistas literárias, contracapas e badanas ou separadores televisivos (estes já só em dias de centenário) passem o tempo a mostrar imagens dos escritores clássicos enquanto velhos. A escrita literária não dispensa, geralmente, maturidade e sapiência, mas não é uma actividade reservada a anciãos, como a iconografia editorial sugere. Pedagogicamente, esta tradição ou inércia tem sido catastrófica. A juventude está por vezes disponível para a literatura, mas é sempre avessa a projectar-se a si própria na terceira idade. E o que a imagética institucional tem feito é dar à juventude a desculpa de que ela precisa para remeter os clássicos para a cave bafienta da paleontologia (sem que Hollywood tenha feito com os escribas jurássicos o mesmo marketing que fez com os dinossauros).
Somado o fosso geracional ao fosso histórico — tão fundamente cavados pela passagem do tempo, a invenção da cor, a evolução do trajar e do pentear, e pelas escolhas preguiçosas dos responsáveis gráficos —, é uma verdadeira surpresa que hoje alguém com menos de trinta anos se interesse por literatura com mais de vinte anos (quando já tão dificilmente se interessa por literatura tout court).
É certo que em alguns dos casos mais antigos não há retratos disponíveis do escritor enquanto jovem. Sobram uma estatuária amputada, umas gravuras que parecem de santinhos da igreja, de duvidosa correspondência ao modelo biológico. Mas, havendo pudor de fazer passar esta iconografia por um processo inverso ao da Maddie (um rejuvenescimento especulativo computadorizado), restavam duas soluções: assegurar-se que de autores mais recentes se publicavam sobretudo as fotos menos envelhecidas, para contrabalançar, ou optar-se por biografias em vez de imagens, biografias que insistissem particularmente no facto de os autores terem sido jovens e humanos como todas as outras pessoas.
Porque a verdade é que a maioria dos escritores e pensadores não teve de esperar pelos sessenta ou setenta anos para escrever as suas melhores obras — e é isso que a juventude em formação precisaria imediatamente de saber, se não por imagens, por palavras. Que, tirando José Rodrigues dos Santos, a literatura é coisa de gente interessante ou normal, viva ela em que século viva.
Para ser verdadeiramente pedagógico, um livro ou manual escolar deveria apresentar a imagem do escritor à época que escreveu o texto. Junto com o cadastro policial e político, testes de alcoolémia, testemunhos de rivais, resultados de análises às DST e cartas de ex-amantes ressentidos/as.

Freud, Pavlov e Green Peace na fila do supermercado

Baixote mas entroncado, vermelhusco, segurando o telemóvel com aparente mau jeito, espera na fila enquanto fala com o que se suspeita ser uma esposa provisoriamente desavinda, talvez uma ex-mulher com esperanças ou contas a ajustar. Longos silêncios significam que escuta. Ou finge escutar, já que quando fala retoma exactamente ao ponto anterior da conversa, como se do lado de lá não tivessem dito nada, acrescentado nenhum argumento ou informação nova. A espaços, bufa e solta pequenas interjeições, faz comentários para o lado, como se os clientes do supermercado fossem a sua plateia e ele tivesse apartes a cumprir no texto que o autor escreveu para si na peça. Pede a nossa simpatia para a maçada que enfrenta pacientemente, a nossa cumplicidade com a sua condescendência, o nosso sorriso para as suas piadolas paternalistas, o nosso aplauso para os súbitos rasgos de autoridade, à homem. Machistas.

Quando chega a vez dele na caixa, rejeita o saco plástico e desdobra o seu próprio saco reutilizável, gesto inesperado para figura tão claramente desinteressada do conceito de sustentabilidade ambiental. O que devia desiludir quem acredita na adesão consciente, não-pavloviana, do povo a campanhas de sensibilização. Ou dar um pequeno gosto de vingança à ex-cônjuge do indivíduo em estudo: certamente foi ela quem lhe incutiu o hábito económico ou ecológico que ele ternamente perpetua.