domingo, 9 de fevereiro de 2014

Tom Rosenthal

Quando nos sentimos felizes por não conhecer a música original. Não: quando nos sentimos felizes por conhecer um excelente artista.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Redireccionando a bigorna

«Sonho com uma bigorna a cair sobre o servidor global do Facebook, interrompendo a "comunicação" entre tantas pessoas desejosas de mostrar fotos da roupa interior ou de espalhar ignomínias. Antes, os idiotas andavam um pouco por todo o lado, mas distinguiam-se bem. Agora, estão escondidos na Internet.»
Não sei se Francisco José Viegas escreveu isto (espero que não) e, se o fez, em que contexto, mas parece-me coisa mais digna de Miguel Sousa Tavares (que considerou o Facebook uma mera «agência de namoros») do que dele. Vejamos: o mesmo tipo de idiotas que pulula no Facebook andou (e anda) pelas caixas de comentários dos jornais há muito, pelos fóruns das rádios desde sempre, e consta que frequenta (em larga maioria, arrisco) os cafés da classe média. Mais: este tipo de idiotas, atrevo-me a dizer, constitui a maior fatia de leitores do Correio da Manhã, esse órgão onde parece ser possível ir entregar artigos de opinião sem pisar nas vísceras e sobretudo na merda que há pelos corredores. (Ok, talvez muitos destes idiotas não leiam jornais, nem sequer o CM. A Internet é de facto um bom substituto para voyeurs.)  

O Facebook é também por certo uma agência de namoros. E está cheio de idiotas. São talvez a maioria, que sei eu? Agora, reclamar para ali uma pureza e uma elevação de espírito que a sociedade não tem, que os jornais, as rádios e as televisões não têm, parece-me ridículo. Ou melhor: reclamar essa pureza está certo. Era o que toda a gente devia fazer. O que é ridículo é achar que ela pode existir ali não existindo nos outros lados.

Já me parece mais acertada a crítica de Sousa Tavares à subserviência do jornalismo em relação ao Facebook. Mas, de novo, diabolizar o FB não adianta de muito. O problema não é a subserviência em relação a isto ou aquilo. O problema é a subserviência. A idiotice que existe no Facebook não é pior nem mais generalizada do que a idiotice que existe nas televisões, por exemplo. Televisões que, aliás, mais do que revelarem subserviência face à idiotice, promovem a idiotice, são em grande medida responsáveis pelo tipo de sociedade idiota que temos. (Não, não são apenas espelho, não sejam ingénuos.)

A cair uma bigorna (e Deus sabe como eu sonho com uma há décadas) que caia primeiro nas TVs, onde traz mais proveito e tem bem menos probabilidades de esmagar inocentes.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Velas benzidas

[Eis o conto a que se referia o post anterior:]

Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz falhava. Reuníamo-nos doze numa mesa que mal dava para seis, mas eu de algum modo conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

10 livros que me marcaram

[Desafiado para uma “corrente” no Facebook, fiz a seguinte lista, que não resisti a comentar. Escuso de dizer que os dez livros indicados não são os dezlivros da minha vida, mas apenas alguns deles.]

1 - A MONTANHA MÁGICA, Thomas Mann.
Li-o numa edição que já tinha passado por várias mãos, sem capas, em papel amarelado, com cheiros antigos, talvez a edição perfeita para me transportar para a época da acção. Foi-me emprestado pelo meu grande amigo Carlos Chaves e, entre tantos, fiquei-lhe a dever também este favor: de me por na rota da literatura séria. Era Inverno mas nos dias que demorei a lê-lo nunca houve frio. Na cama, funcionava como um cobertor extra, um que aquecia também a alma.

2 - A GUERRA DO FOGO, J.-H. Rosny, pseudónimo dos irmãos belgas Joseph Henri Honoré Boex e Séraphin Justin François Boex.
Também é uma recordação de calor por fonte literária. Devo dizer que não tenho a certeza absoluta de que o livro que me ficou na memória seja este, embora pela pesquisa qui fiz na Internet a probabilidade seja bastante grande. Terei de ver o filme. As razões por que me marcou serviram já de inspiração para este post: http://www.canhoes.blogspot.pt/2011/12/planos-de-vida.htmle um conto (“Velas benzidas”), que, já agora, publicarei aqui num post a seguir.

3 - CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA, Gabriel García Márquez. Li-o de uma assentada com espanto por ficar preso a uma história de que sabia o fim. Tinha andado a fazer a limpeza de Primavera (na minha terra fazia-se na Páscoa uma limpeza anual aprofundada à casa, e eu devo ter demorado a livrar-me do ritual). O mundo, como a casa e os lençóis lavados, cheirava a fresco, parecia estar a começar de novo, resplandecente e auspicioso. Tenho de me lembrar dessa receita para estes dias de chumbo. Uma barrela e um livro.

4 - O PROCESSO, Franz Kafka. Durante alguns anos, dizia, como elogio à força do livro, que durante a leitura, nas partes do tribunal, me doía o pescoço ao imaginar-me nas galerias de tecto baixo que obrigavam a assistência a ter a cabeça dobrada. Hoje nem sequer sei se o livro tem de facto uma parte assim ou se, como tantas vezes, a minha memória se pôs a ficcionar. De qualquer modo, a estranheza das histórias e o magnetismo da escrita de Kafka, neste e nos outros romances e contos, foram definitivamente marcos literários na minha vida.

5 – A PORTA DOS LIMITES (Urbano Tavares Rodrigues) e 6 – FATHERLAND (Robert Harris).
Refiro estes não exactamente pela sua qualidade literária (de Urbano teria de referir A Vaga de Calor), mas porque em dois momentos da vida me alertaram para o facto de que havia mais literatura (e prazer) do que a de aventuras ou de ficção científica. Depois deles estava pronto para A Montanha Mágica. Que foram marcantes, testemunham as vezes que já os mencionei, como neste post: http://canhoes.blogspot.pt/2011/11/de-equivoco-em-equivoco.htmle num outro de uma vida anterior do blogue que talvez um dia reponha por aqui.

7 – EM NOME DA TERRA, Vergílio Ferreira. É este mas podiam ser vários outros do mesmo autor. Folheei-o na casa de alguém com uma atitude snob, não querendo acreditar que a proprietária o comprara intencionalmente, o não confundira com literatura do coração. (Consegui ser muitas vezes parvo ao longo da vida.) Eu nunca lera nenhum livro de Vergílio, mas por ter ‘ouvido dizer’ que era bom achava-me já no direito de desconfiar de quem de facto o comprara para ler. Enquanto o folheava, fui agarrado pelos tomates. Aquilo era avassalador: a escrita, o ambiente, a narrativa, a indagação existencialista, a poesia amarga ou melancólica do discurso. Revia-me intensamente naquele tom e entrava com assombro num mundo de gente mais velha, que olhava para a vida de outro estádio, para mim ainda estranho. Pedi-o emprestado e de seguida comprei e li tudo o que apanhei do autor, aproveitando sofregamente as pausas do almoço.

8. O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, José Saramago
Comecei pelo Evangelho Segundo Jesus Cristo, que achei bom, mas passado num ambiente e num estilo de parábola que nunca me entusiasmaram. O Ensaio Sobre a Cegueira (que já não me lembro se li antes ou depois de O Ano da Morte…) pareceu-me “bom demais” e, na minha juventude insegura, temi estar a ser levado por um eficaz efeito cinematográfico (antes de haver o filme). O Ano da Morte de Ricardo Reis parecia-se mais com os clássicos e tinha uma história menos fantástica, apesar da sua improbabilidade. A Lisboa narrada, o ambiente no quarto, na sala de jantar, no hotel, nas próprias ruas, as relações entre as personagens, tudo isso tinha para mim muito de A Montanha Mágica, para dialogar com outro livro desta lista. Deveria lê-lo de novo para perceber se a parte política, agora mais percebida, me teria influenciado negativa ou positivamente. Seja como for, o menos saramaguiano dos livros de Saramago ficou-me na memória e nos afectos como um dos livros da minha vida. De resto, prefiro este lado mais sombrio e kafkiano da obra do autor: Todos Os Nomes seria a minha segunda escolha.

9. O ANIMAL MORIBUNDO, Philip Roth
Este é uma leitura mais recente, com uns seis ou sete anos. O fã de aventuras e ficção científica tinha-se transformado e passara a interessar-se por quem escrevia sobre a vida das pessoas, a sua psicologia, as suas relações, a doença, o amor frustrado, os sentimentos, etc. Já passara nos anos anteriores por Updike, Bellow, Carver, etc. Talvez ainda fosse o mesmo fascínio da Natureza, das sagas, do Universo, mas agora concentrada na aventura e no mistério de estar vivo. A prosa de Philip também ajudou a que por aquela altura me apetecesse oferecer o livro a toda a gente. E ainda não tinha lido O Complexo de Portnoy.

10. AS LÁGRIMAS DE MEU PAI, de John Updike. (Também podia ser Procurai a Minha Face.)
Leitura ainda mais recente, esta colecção de contos é tudo o que gostaria de escrever na terceira idade, se algum dia lá chegar. (Bem, é tudo o que eu não me importava de escrever ‘agora’…) A mestria da escrita, a serenidade do tom, a paz, a evocação não exactamente nostálgica nem traumática da vida dos protagonistas… O livro é uma espécie de testamento, de despedida do escritor. Pelo menos eu li-o assim. São histórias de gente idosa que se encontra com velhos colegas de liceu em jantares de curso ou por acaso, que se visita em lares de terceira idade, que reencontra antigos cônjuges ou amantes, que confere a lista de baixas, as doenças, os desaparecimentos, as inflexões nas relações, as mudanças de carácter. Que revisita lugares antigos. Mas tudo é relatado, observado com uma ironia carinhosa, um afecto cordial e discreto. Como só os espíritos superiores podem olhar para a vida.

[O décimo livro poderia ou deveria ter sido O Teu Rosto Amanhã, de Javier Marias, mas sobre ele teria de me atrever a um longo texto e isto já vai suficientemente arrastado. Já o aflorei em pelo menos dois posts, este http://canhoes.blogspot.pt/2013/10/moldando-o-entusiasmo.htmle este http://canhoes.blogspot.pt/2012/03/o-tempo-e-prosa.html.


E A Piada Infinita? E Liberdade? E A Viúva Grávida? E...?

«Ser humilhado é um direito»

O problema da praxe (sim, é um problema) poderia ser minimizado, não exactamente proibindo-se esse desporto néscio, mas se todas as universidades exigissem que os alunos aprendessem para continuarem lá e lhes testassem com frequência os conhecimentos; se as empresas e o Estado contratassem de facto prioritariamente os que melhor desempenho académico têm ou mais bem preparados se revelam, e não os que têm melhores “referências” ou se mostram mais chico-espertos; se as famílias, em contrapartida à mesada e às despesas pagas, exigissem resultados e se orgulhassem mais de boas notas do que de trajes, emblemas e títulos fúteis; se os comensais de bom gosto e de boa educação num restaurante fossem em número suficiente (não são) e tivessem ânimo suficiente (não têm) para se opor à tirania dos bárbaros, exigindo moderação na voz e boas maneiras à mesa; se a polícia levasse a sério as leis do ruído e mais umas minudências legais afins. Pequenos passos para as instituições, grande passo para a humanidade. Mas para isto tínhamos de presumir que o resto da sociedade difere dos patetas perigosos que dizem que «ser humilhado é um direito». Os passos necessários são curtos, mas ainda assim é preciso ter pernas.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

The show must go on

Perante um "contratempo" estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.


P.S. Visto no jas-mim.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O caso El Mundo ou os dias contados da imprensa séria

O El Mundo trouxe à luz do dia os casos Bárcenas (financiamento ilegal do PP, partido do Governo em Espanha) e Urdangarin (escândalo de corrupção protagonizado pelo genro do Rei).
Os accionistas de El Mundo, inesperadamente, afastaram Pedro J. Ramirez da direcção do jornal que fundou.
Diz-se por todo o lado, e é difícil achar falso o estrepitoso rumor, que o afastamento surge por pressão do Governo espanhol e da Casa Real.
Longe vai o tempo em que havia tipos de dinheiro a investir em projectos de jornalismo de investigação em vez os dificultarem. Em Portugal, o dinheiro disfarça-se de mecenas para pagar umas reportagens de cariz histórico ou cultural (as do Público Mais). São interessantes e aliviam a consciência de todos os envolvidos: investidores, jornal e leitores, que assim podem assistir impávidos ao definhar da investigação.
Apesar de injusto (numa primeira fase) para os restantes jornalistas de El Mundo, os leitores do jornal deveriam boicotá-lo a partir de hoje. Doutra maneira, será cada vez mais difícil haver imprensa independente e ousada, condição essencial das democracias.
Mas não tenho muita fé em atitudes drásticas por parte dos leitores. Em Trás-os-Montes, o único jornal que conheci que de facto fez jornalismo (o Semanário Transmontano) terminou um dia por cansaço sem que se ouvisse um queixume em todo o “reino maravilhoso”.
Na península (e não só nela), o conluio entre o dinheiro e os poderes ainda tem muitas ofensivas para fazer antes que o povo perceba o que perde perdendo a democracia. E a democracia perde-se quando se perde o jornalismo de investigação. Continuem a iludir-se com o jornalismo cidadão e tretas afins.