domingo, 10 de março de 2013

O contributo da Lei de Lynch para a redução do défice

«É assim tão difícil pôr desempregados a limpar as matas?», pergunta João Salgueiro, membro do Conselho Económico e Social, ex-ministro das Finanças, ex-vice-governador do Banco de Portugal, ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos e da Associação Portuguesa de Bancos.
Se quisermos estar suficientemente fodidos com os tipos que têm disposto do país nos últimos vinte ou trinta anos, podemos decidir encontrar um certo tom nazi na pergunta. Como se ouvíssemos uma das questões burocráticas que Himmler punha a Rudolf Hoess.
Claro que o economista na mesma passagem invoca Keynes e isso é suposto ilibá-lo de qualquer deriva neoliberalista. Sabemos que é melhor ter a classe média ocupada do que a remoer insatisfações, mas duvido que obrigar desempregados a limpar matas caiba no conceito de apaziguamento social.
É possível que estejamos no limiar de uma situação como a que se viveu no pós-guerra, onde a civilização se suspende e as pessoas lutam para sobreviver, regressa a agricultura de subsistência, quem sabe se a velha condição de caçador-recolector. Posto perante essa circunstância, o povo agirá naturalmente em conformidade, não precisará de velhos senadores a indicar-lhe o caminho: tem todo um genoma a exigir-lhe que sobreviva.
Há na ligeireza com que os poderosos se referem aos desempregados, ao cidadão comum, uma ressonância inadequada de nobreza velha ou velha aristocracia. Inadequada, entre outras razões, porque do outro lado do espectro não está uma massa bruta, medieval, sem educação nem anseios ou ambições, resignada à miséria e à inferioridade desde o nascimento. Os tipos que, na sua patética sobranceria, se dispõem a falar de milhões de pessoas como se falassem de crianças irresponsáveis ou de velhos servos da gleba deviam, em primeiro lugar, questionar-se se a sua carreira, o seu trabalho, o seu mérito (no caso de terem algum) justifica sem hipocrisia que aufiram vencimentos ou reformas equivalentes aos de 50, 100, 200 homens ou mulheres em idade laboral. Numa república não deveriam existir os privilégios “naturais” que uma casta, não raro incompetente e perdulária (a crise não começou em 2008 vinda do nada), parece ter. Na Suíça, tão reverenciadora do capitalismo e mais distante da crise do que nós, há uma maioria de população favorável a que se limitem as diferenças salariais nas empresas de modo a que o vencimento mais alto não seja mais do que 12 vezes superior ao mais baixo. E isto, que parece minimamente sensato e digno em qualquer circunstância, transforma-se numa urgência quando se vive o drama que vivemos em Portugal. Nenhum Salgueiro ou Borges deveria poder recitar a sua opereta sem antes ter sido aproximado da plebe pela via (da deflação) salarial. Não se trata apenas de justiça. Há alguma profilaxia nisto. Quanto menos homens couberem no salário desta gente, menos hipóteses haverá de encontrar nesse conjunto um que se sinta suficientemente indignado ou desesperado para achar a Lei de Lynch uma forma sedutora de reduzir o défice nacional.
Talvez o confisco dos ricos não chegue para pagar a crise, mas quem sabe não lhes inspira melhores contributos para a economia geral ou, pelo menos, os mantém num respeitoso silêncio.

Lugares-comuns da nacionalidade

À entrada do supermercado, um junkieque por aqui passou na quinta-feira senta-se de pernas cruzadas à oriental, substituindo a mulher romena ou moldava que por ali costumava estar a pedir (e terá partido, talvez receando a concorrência nacional que aí vem). Entram duas ciganas jovens e, numa súbita inversão, ele oferece-lhes uma embalagem de croissants, certamente esmola cristã que tinha recebido mais cedo nesta tarde. Elas declinam, com cordialidade nas palavras e no tom
— Não, obrigada
e vão depois decididamente hesitar em frente a uma prateleira de bolachas e afins.
Talvez a oferenda dele enfermasse de um de dois automatismos genéticos, masculinos: os croissants como jóia possível para abrir o coração feminino ou o gesto esmolar como reacção típica perante elementos da velha tribo nómade.
Num instante de uma tarde chuvosa o mundo decidiu evocar, subverter ou misturar alguns dos lugares-comuns que fazem a nacionalidade, passada, presente e futura.

sábado, 9 de março de 2013

Ganhar asas

Estou de rastos, se querem saber. Ao acordar li no Facebook que o Possidónio Cachapa correra hoje 15 km, e eu, que não quero ser menos escritor do que ele, achei que devia tentar o mesmo. Desci para junto ao rio da minha aldeia, que não é menos belo do que o Tejo dele. A certa altura, deu-me a modéstia (a moléstia foi mais tarde) e achei que os meus doze de máximo chegavam para me garantir um lugar humilde mas honesto nas letras portuguesas. Só que quando já orientava os passos para o Calvário que me finaliza a corrida resolveu cruzar os céus uma rara cegonha preta e, claro, fiquei embeiçado. Inflecti e alinhei-me com o rio da minha aldeia, para montante, como ela tinha feito. Imaginei, na minha idiotez matutina (para mim é manhã até tarde da noite), que a bicha haveria de aterrar no mesmo território onde se apascenta a garça-real de que já aqui falei. Entre ir e vir seriam mais dois quilómetros, calculei. Se swingasse mais um pouco atingiria os 15 e poderia sentir-me, por direito próprio, alguém do métier literário. Chegado ao local não havia cegonha nem garça, apenas os sacos de plástico do costume presos nos mesmos galhos na orla da corrente. Suponho que não se faz poesia com musas ausentes e sacos do Continente, biodegradáveis que sejam. (Bem, sendo biodegradáveis e do Continente, talvez a Adília faça.)
Fiquei desolado. A competição para mim acabara. Ou já não competia pela distância mas para saber se sucumbiria por fraqueza das pernas ou síncope cardíaca. Arrastei-me como pude para casa, sem swing nem forças, pensando inscrever-me num dos cursos de escrita criativa do João Tordo — para me manter sob influência ornitológica e, quem sabe, ganhar finalmente asas. Se não para as letras, para que os 15 km me não pesassem tanto nas pernas.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Delfina (3)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 3.ª parte]

«As instalações sanitárias do Hotel do Norte tinham sido modernas. Agora eram apenas vagamente funcionais, com os canos a soluçar e a água a sair por vezes com um grau de ferrugem muito superior ao que ficava no fundo dos copos que se enchiam na Nascente N.º 1. Delfina tinha bebido ali um copo no dia da chegada, por amabilidade de uma das funcionárias, uniformizada com bata e touca brancas, imaculadas, que procedia à limpeza de fim de estação. Grata pela cortesia, Delfina não suspeitou logo que estava num zoológico invertido. Era a senhora de branco (sentada a um nível inferior ao dos visitantes, uma balaustrada a separá-las) quem parecia numa jaula, mas era Delfina que estava a ser intensivamente observada, era ela a atracção dentro do buvete Arte Nova transformado momentaneamente em pavilhão de zoo, a água como amendoins.
As duas mulheres encontravam-se em situações idênticas. Delfina nunca tinha visto uma campânula de vidro daquelas, cilíndrica, alta, com a água no seu interior a ser renovada permanentemente por jorros vindos das profundezas da rocha, gorgolejando o gás natural que a tornava famosa, as bolhas a surgirem enormes, em ímpetos, e depois desvanecendo-se em miudinhas borbulhas descendentes, lentas. Pelo seu lado, a senhora da touca nunca tinha visto senão em fotos uma pele assim, chocolate escuro moldado ao corpo e às formas voluptuosas de uma mulher jovem e fibrosa. Uma observava a tecnologia e as maravilhas da Metrópole termal e romântica. Outra imaginava-se num daqueles circos que exibem extravagâncias da natureza.
No fundo do copo que agradecera e bebera (primeiro a estranhar o gás e o sabor a ferro e depois com sofreguidão) tinham ficado algumas lâminas pequeninas de ferrugem. Agora o jacto do chuveiro deixava na banheira branca doses sucessivas do mesmo material. Tencionava tomar um duche, tanto por sentir que precisava disso como para encontrar algum prazer a meio de uma tarde particularmente aborrecida. Livre da saia e da blusa coloridas, que despira demasiado cedo, sentou-se na borda a aguardar que a água perdesse o tom acastanhado.
A casa de banho, espaçosa, com a porta a dar para o corredor, era de serventia comum. Havia gente a bater com frequência, o que perturbava a intimidade e não permitia que a divisão assumisse em pleno a sua outra função de local de recolhimento. Num momento ou noutro do seu decurso, o alívio das necessidades e as abluções acabavam por ser partilhadas com alguém que se encostava à face exterior da porta à espera de vez.
A água por fim veio limpa e Delfina entrou na banheira, metendo o corpo debaixo do jorro do chuveiro. Estava fria, como poucas vezes a sentira. Apeteceu-lhe o choque térmico e cerrou os dentes, retesou os músculos, mas no peito sentiu que o coração a ameaçava com um colapso. Os pulmões contraíram-se involuntariamente; respirava em soluços profundos e dolorosos. Esfregou vigorosamente os ombros e a barriga e, segundos depois, tinha aumentado a sua tolerância à baixa temperatura.
Eram demasiadas semanas confinada a um mesmo espaço, sem que a vida tomasse um curso, fosse ele qual fosse. Vir para a Europa parecera-lhe desde o primeiro momento uma coisa assustadora, mas estava ansiosa por experiências, por contactar o mundo exterior. Não que mantivesse brilhantes expectativas quanto a isso, até agora tudo lhe parecera feio e os brancos não se mostravam em muitos casos melhores do que em África. Por vezes eram piores: juntavam numa só manifestação a repulsa e uma curiosidade boçal; insinuavam o desprezo, mas não conseguiam desviar o olhar pasmado e intrusivo. Desejava tornar-se transparente, invisível, ser transportada para outro lugar.
Debaixo do jacto irregular do chuveiro, fechou os olhos, tomada por uma alienação agradável, apesar da água fria. Deixou-se sonhar. Entrou na redoma transparente que vira na fonte. Sentiu as borbulhas a contornarem os pés e depois a propagarem-se pelo corpo todo, fazendo-lhe cócegas, massajando-a, entorpecendo-a. Gostava daquela sensação. Rodava na banheira como se o fizesse na campânula. Era um anjo num daqueles globos de neve de enfeitar móveis. Um anjo negro. Ouviu vozes e risos no corredor e tapou-se instintivamente com os braços. Também era um espécime raro exposto à devassa do público.»

in Hotel do Norte

Delfina (2)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 2.ª parte]

«Delfina e a mãe estavam a ficar desiludidas com o padrasto, mas ao mesmo tempo hesitavam em censurá-lo abertamente. Não por receio de consequências, a relação deles não envolvia violências, nem o padrasto era um patriarca despótico. Não era, aliás, um patriarca, não havia disso naquela família. Delfina crescera a ver os dois elementos do casal como iguais; com características particulares e incumbências raramente permutáveis, mas iguais em importância e influência. Iguais nos defeitos, até. Por exemplo: fumavam os dois incansavelmente charutos.
Mas agora sentia-se mais próxima da mãe do que do padrasto. Não era o sangue, era talvez o facto de apenas elas serem estrangeiras e estarem desamparadas nesse sentimento.
Reduzir o problema da família a uma questão de mudança geográfica era uma tentativa de indulgência em relação ao padrasto, a forma de evitarem censurá-lo directamente. Sentiam-se estrangeiras, assustadas, sim, mas havia o comportamento dilatório dele, os seus medos e a forma como se estava a entregar a eles, afastando-se da mulher e da enteada.
Precisavam dele. Não gostariam de o alienar ainda mais deixando-o perceber como se sentiam temerosas e desamparadas. Deixando-o perceber que elas sabiam o que se passava na cabeça dele, a forma como os velhos preconceitos se apoderavam da sua vontade — como memórias que voltavam — e se sobrepunham aos afectos.
Era desta soma de medos e ocultações, e da consciência que todos tinham deles, que se compunha o mal-estar. Nos silêncios e nos olhares todos percebiam o que ia na cabeça de cada um. Ele agarrava-se à doença como quem se agarra a um ramo na margem para não ir com a corrente — ignorando que podia vencer a corrente simplesmente nadando. Elas zombavam e minimizavam o seu sofrimento, como se tudo o que desejassem fosse que ele se queixasse menos. Ele era o velho hipocondríaco, elas as que não tinham paciência nem piedade. Era desta forma artificial que se aborreciam e magoavam, para não terem conversas francas, previsivelmente mais fracturantes; para o padrasto não ter de dizer (e envergonhar-se disso) e elas não terem de ouvir (e sofrer a punhalada) que a razão por que ele adiava a partida para o Seixo era o facto de elas serem pretas.»

in Hotel do Norte


Delfina (1)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher]

«Todas as roupas de Delfina eram de tecidos finos que se moldavam ao corpo: uma saia comprida e justa, uma blusa curta sem mangas e um lenço na cabeça que lhe caía pelos ombros. Nenhuma das peças possuía qualquer relevo, nenhum ornamento ou bolso ou laço, nenhum volume se destacava que não pertencesse ao corpo da mulher. Um retratista, daqueles que costumavam frequentar o Parque no Verão, teria podido desenhá-la nua sem o embaraço de ela se despir.
Ia para o miradouro que havia ali perto — um promontório de construção romântica, com uma rampa e degraus em cubos de granito e gradeamento em betão a imitar troncos de árvores — donde se avistava a parte inferior do Parque e a aldeia para lá dele, com a serra por trás. Era um horizonte pequenino, mas ela supunha que num país pequeno não havia horizontes mais vastos. De qualquer modo, gostava sempre de ir ali um bocado qualquer do dia encher de vistas os olhos cansados do quotidiano claustrofóbico no Hotel do Norte.
Ainda não se aventuravam muito longe do local de acolhimento, inibição que ela imaginava semelhante à dos exploradores num safari, cautelosos no período após se montarem as tendas numa clareira. Não havia animais selvagens nas redondezas, isso Delfina sabia, mas nem todos os medos ou constrangimentos tinham origem em feras.
O local, como de resto todo o Parque, era de vegetação densa. As árvores rodeavam o miradouro e faziam uma só copa que o cobria; heras vigorosas cresciam e enredavam-se nos gradeamentos; os canteiros em volta estavam atapetados de plantas que ela desconhecia, mas que faziam um manto compacto e fofo, delimitado por murinhos baixos. No espaço de um mês, ou menos, tudo estaria mais despido, mas isso ela ainda ignorava. O sol matinal, que os ramos não obstruíam, atingia-a na face e descia pelos ombros, convidando-a a espreguiçar-se.
Era neste acto que ela se retraía, olhando em volta, de novo ciente da sua condição de estrangeira em terra estranha. Sentia-se rodeada de atilhos, espiada, alvo de olhares que se ocultavam como hienas à espera. Com um arrepio, cruzando os braços sobre o peito, regressava em passo rápido ao Hotel.
Delfina não tinha um quarto só seu. Partilhava com a mãe e o padrasto um compartimento e o mal-estar que cindia a família. O Hotel do Norte era para eles apenas um apeadeiro antes do destino final, pelo menos a acreditar no padrasto, que há vinte e seis anos trocara o Seixo — um lugar não muito longe dali, a norte — por África. Com o passar das semanas, as duas mulheres da família julgavam perceber que a coragem dele recuava. Tinha carinho por elas, disso não restavam dúvidas, mas faltava o passo seguinte, mostrá-las aos irmãos e cunhados que não saíram da aldeia e dizer-lhes, com normalidade, que aquela era mulher dele e aqueloutra a filha que tinha o gosto de considerar como sua.
Ela e a mãe mantinham as malas feitas à espera da ordem de partida. Acreditavam, queriam acreditar, que não havia nada de mal com elas, que neste país as coisas poderiam ser iguais a África, com a vantagem de não haver nenhuma guerra à vista. O padrasto afagava a face de uma e de outra e deixava-se cair na cama, queixando-se de dores incertas.»

in Hotel do Norte

quinta-feira, 7 de março de 2013

Tomando nota

Uma das vantagens do meu parque-mundo é que os seus habitantes são como diamantes, prismas com muitas faces que brilham à luz do sol. Podemos tomá-los por vários ângulos, mostram-se-nos em cada circunstância com diferentes fulgores. Não sendo muitos, cada um é uma multidão. Quando o sujeito careca que se senta à hora do almoço na escadaria com vista para o rio pega num livro, por exemplo, podemos considerar que aproveita o almoço para ler, porque gosta, porque precisa de distrair o desgosto amoroso, porque a bancarrota ou o desemprego agora lho permitem. Ou podemos decidir ver diferente e concluir que o livro é na verdade um bloco de assentamentos, dos antigos, de capa dura, onde toma nota dos negócios da marijuana e do resto.