quinta-feira, 7 de março de 2013

Os corredores e os melancólicos

Sempre que vejo um tipo (ou tipa) a correr no parque sinto um impulso de me deitar também a correr, mesmo que tenha acabado de o fazer. Tenho um instinto mimético neste campo, cresce-me uma inveja ou não sei o quê.
Mas não são os atletas os meus habitantes preferidos do parque. São-no os que deambulam e se detêm com ar melancólico a perscrutar um horizonte que o parque não tem, na exiguidade da sua topologia. Não sei o que olham. Um pássaro exibicionista? A corrente variável do rio? Uma sombra evocativa? Uma árvore, um ramo, uma flor? O crescimento da relva? As outras pessoas? O rabo de alguém? Tudo isto — ou seja, a vida? Talvez nada do que está no exterior, e é como se os seus olhos se rebolassem para dentro, a observar o que a cabeça contém, as memórias, as mágoas, as perdas, as inquietações, a felicidade que uma vez tiveram. Talvez os planos para um romance, uma peça de teatro, uma cantata, uma longa-metragem, um drama autobiográfico. Não é impossível que vagueie por ali gente desta, esquivando-se das pessoas como das gotas da chuva.
Seja como for, prefiro os melancólicos aos corredores — eu que sempre que posso acumulo em mim os dois.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A capital do México

À noite, o centro histórico é habitado apenas por ocasionais grupos de sexagenários debatendo em passeio digestivo o estado do país e dos clubes ou por arruadas histéricas de universitários que abandonam restaurantes e rumam a bares. Após os passeios dos primeiros e nos intervalos das hordas dos segundos, há momentos de silêncio. Silêncio a certa altura interrompido por um casal singular. Ele, gigante, bem constituído, barba negra, sotaque sulista com uma certa sofisticação. Ela, miudinha, magra, precocemente envelhecida mas não nova, pronúncia nortenha sem elaborações. Descem uma rua e berram um com o outro, não com ânimo de discussão ou protesto. Fazem-no como se a diferença de estaturas e latitudes fosse um abismo e tivessem de gritar mutuamente para serem ouvidos. Ele inclina-se para ela a cada passo como um boneco articulado; ela saltita ao pronunciar as palavras, como se as impulsionasse. Vêm num estado de espírito alegre. Almas gémeas em corpos e jeitos antagónicos. O assunto é geografia e para ela a capital do México é
— Cabu… Cabu…
— Não é a Cidade do México?
— Não, pá, é Cabu… Cabu qualquer coisa.
— Não sei por quê, julguei que era a Cidade do México.
— Cabu… Cabul! É Cabul!
— Pois, é isso, tens razão. Já tinha ouvido dizer — anui ele, numa concessão sincera mas ao ouvido inverosímil.
Param em frente à montra de um café aberto e ela, sem ceder nos decibéis, comenta qualquer coisa que vê na televisão ou atira imprecações lá para dentro. Riem alto e ele quase a enlaça pela cintura. Ela resiste. Mais uns passos e, mesmo ao virar da esquina, ele logra enlaçá-la pela cintura. Ela ri-se, coquete, lisonjeada, refilona, e inflecte o caminho.
— Não era por ali?
— Não, pá, é por aqui.
— Julguei que fosse por ali.
— Ouve, é por aqui.
Estão a retroceder nos seus passos antes de nova inflexão, mas ele não se mostra incomodado. O andar era acelerado, mas talvez não houvesse pressa, afinal. Pareciam ter um destino, mas se calhar isso pode ser alterado. Ela dir-se-ia feliz a desorientá-lo pela cidade, ele tem esperança num desenlace recompensador. Entre o terem-se abastecido no dealerdela e o recanto onde se ministrarão o que quer que tenham adquirido, o mundo apenas existe como décor da sua deambulação. Os que passamos por eles somos meros figurantes com quem, no seu enlevo romântico, não se importam de partilhar cada sílaba dita e cada gesto feito, ou a quem atirarão um impropério qualquer, se lhes der na veneta. A madrugada há-de apanhá-los a descoberto, menos eufóricos ou mais zangados com o mundo.  Não é impossível que ela termine, como noutras noites, sozinha a vaguear pelas ruas a insultá-lo ou a insultar o mundo ou a insultar o deus que pariu este mundo. Ele, por enquanto, ainda confia que pode haver sexo e talvez ela nem tenha intenção de o desmentir, não por princípio. Um rendez-vous entre junkies não tem de ser radicalmente diferente das saídas das outras pessoas, mesmo que decorra uns decibéis acima do comum e tenha (um pouco) mais disponibilidade para errar pela noite. 

Terceira Lei de Newton

Os participantes concentram-se na zona de partida, formando uma multidão compacta e saltitante. Na orla, alguns apoiam-se em muros ou em postes e fazem alongamentos. Todos se agitam, aquecendo os músculos, o que concede àquela massa humana um pulsar nervoso. Há gente com um divertimento ensonado, matinal, e gente já um pouco histriónica. Os mais habituados apenas aguardam o sinal de partida, têm um entendimento burocrático dos prolegómenos. Ela observa uns e outros, tentando decifrar como a vêem a si, em que grupo a inserem. É a sua primeira meia-maratona, mas não gostaria de ser tomada por principiante, treinou muito, nos últimos meses tem vivido para a corrida, está cada vez mais resistente e mais rápida. Infelizmente, os seus pensamentos sobre ele não estão menos persistentes ou perturbados.
Inscreveu-se não para se divertir brincando aos atletas — integrando-se nos que apenas participam solidariamente, pela causa ou pela saúde, e desistem antes do fim, gozando com a própria baixa forma —, mas como consequência natural do treino, da necessidade de correr. E da recomendação do psicanalista, que, talvez por defeito de diagnóstico, viu virtudes na sua dedicação ao desporto. Embora não tenha exageradas ilusões quanto às suas capacidades de atleta, está decidida a competir, a disputar um lugar honroso. Ter objectivos destes é bom para si, é-lhe dito. E é tudo o que lhe resta, pensa com amargura.
O percurso, que sai do perímetro rural da cidade e termina na praça do município, há-de atravessar o parque onde ela treina. E esse momento será o derradeiro teste. Estará, quinze quilómetros depois, suficientemente motivada para chegar à meta numa boa posição e ficar feliz com isso? Ou a passagem pela entrada da ponte gorará todo o trabalho motivacional e ela regressará ao ponto de partida sem concluir a prova?
Ouve-se o apito e ela sai, primeiro num passo saltitante que não avança, aguardando que o grupo se distenda e os amadores abram alas, e depois alcançando progressivamente um ritmo que a mantém na peugada do pelotão de profissionais. Corre a primeira hora junto ao rio, numa zona onde ele já ganhou caudal e largura, e os seus pensamentos vão frequentemente mais rápidos, vogando contra a corrente, até ao local do desencanto. À chegada ao parque, contudo, mantém-se próxima da cabeça da corrida sem acusar demasiado o desgaste, e isso fá-la acreditar na possibilidade de ficar entre os primeiros (pelo menos entre as primeiras). É a única alegria em muito tempo. Talvez possa haver outras razões para se correr. Para se viver. Põe pela primeira vez toda a energia e concentração no esforço de chegar à meta. Passa pela ponte sem consciência total de passar por ela. Na praça, há uma outra multidão à espera dos atletas. Familiares, amigos, curiosos, imprensa. Há ovações quando chegam os vencedores da prova e, não muitos minutos depois, há ovações quando ela conquista o terceiro lugar do seu escalão.
À sua volta vê sorrisos e entre os sorrisos está o dele. As pessoas batem palmas, e ele bate palmas. Bate-lhepalmas. Há outros conhecidos a bater-lhe palmas, divertidos e vagamente orgulhosos da sua façanha, mas é a ele que ela se dirige, meio entontecida com o cansaço, vivendo a alucinação de o ver aplaudi-la e sorrir-lhe. Numa imitação de outros atletas, quer abraçá-lo, lançar-se-lhe ao pescoço, partilhar a sua felicidade, que já nem sabe muito bem qual é, mas ele intercepta-lhe as mãos a meio do percurso, oferece resistência e por momentos são a figura viva da terceira Lei de Newton — e naquele braço de ferro ela pondera o triatlo.


P.S. Terceira parte de uma narrativa, que depois de revista a segunda parte, se poderia chamar “Uma carreira no desporto”, ou algo parecido.

terça-feira, 5 de março de 2013

A origem do mito

As suas correrias levaram-no ao jardim onde está o pequeno santuário da Nossa Senhora. A determinado momento, ao levantar a cabeça deu com o nicho envidraçado e deteve-se, como se atingido por um raio paralisante de um super-herói ou de um invasor alienígena. Talvez tivesse ficado curioso com a estatueta branca, tentando decifrar a ideia por detrás daquilo ou fazendo uma apreciação estética. Ou talvez tivesse parado para ouvir algum recado, uma confidência — diz-se há muito que a Virgem fala com as crianças. Quase um minuto depois, saiu de novo em correria a saltar os canteiros, não se sabe se para regressar à escola, se para fundar um novo culto religioso.

domingo, 3 de março de 2013

A semântica do capitalismo (2)

«Suíça aprova limites para salários abusivos dos patrões.» Agora terão de ser medianamente abusivos? Moderadamente abusivos? Só um bocadinho abusivos? Será o Públicoapenas coerente nas suas estranhas opções de sintaxe ou estará a ser involuntariamente sincero, a interpretar correctamente a realidade, a traduzir acertadamente a semântica do capitalismo?

A semântica do capitalismo

A crer na sintaxe do Público, se o sim ganhar no referendo suíço, haverá «limitação das "remunerações abusivas" dos "patrões" de grandes empresas». Limitação? Tipo: abusem, mas não muito? Abusem dez vezes por mês em vez de 12? Abusem à terça, quinta e sexta, mas não à quarta, sábado e domingo? Devo deduzir que em vez de remunerações gritantemente imorais apenas serão permitidas remunerações suavemente obscenas? O povo continuará a ser fodido, mas em versão softcore?
Ok, vou ler a notícia para ver se os suíços foram grandes o suficiente para referendarem o fim das remunerações abusivas.

Amor de mãe

Diziam-lhe que o filho parecia um delinquente, um marginal; perguntavam-lhe se andava de olho nele. Ela retorquia que as vizinhas tinham um pensamento estereotipado. O miúdo limitava-se a imitar o que via na televisão. Tinha optado por aquele look e apenas se esforçava um pouco mais do que outros para o tornar verosímil. Isto dos adolescentes hoje em dia era só aparência, as vizinhas bem o sabiam, que olhassem para o que tinham em casa.
Ao sábado à tarde o rapaz saía para ir ter com os amigos. Levava a flauta, e a mãe sentia uma ponta de orgulho por o ter matriculado no Conservatório. Não há como a música para distrair os putos dos vícios. Quando ele anunciava a sua saída depois do almoço ela sentia-se tão descansada como se ele fosse a caminho da catequese. (Mais ainda do que isso — nunca se sabe do que são capazes os padres.) Deliciava-se a imaginar os miúdos junto ao rio em cantorias de adolescentes nas tardes que prenunciavam a Primavera. Havia algo de campestre numa flauta e ela, amante do campo, orgulhava-se que fosse o seu rapaz quem, no grupo, soprava a flauta.
Foi-lhe por isso chocante descobrir que não havia cantorias à beira-rio e que ninguém soprava na flauta. Havia, isso sim, umas festas com drogas e uma engenhosa transformação do instrumento musical em cachimbo. A rapaziada passava-o e chupava-o como índios negociando a paz, e ela, depois do choque, perguntou-se se devia sentir orgulho no engenho do filho.